Trópico de Capricórnio

É a linha geográfica imaginária situada abaixo do Equador. Fica localizada a 23º 26' 27'' de Latitude Sul. Atravessa três continentes, onze países e três grandes oceanos.


domingo, 14 de agosto de 2011

Rubem Braga

Quem foi Rubem Braga                       
                                                              
"Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem
para não me deixar entrar, ele ficará indeciso
quando eu lhe disser em voz baixa:
"Eu sou lá de Cachoeiro..."


Rubem Braga, considerado por muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, ES, a 12 de janeiro de 1913. Iniciou seus estudos naquela cidade, porém, quando fazia o ginásio, revoltou-se com um professor de matemática que o chamou de burro e pediu ao pai para sair da escola. Sua família o enviou para Niterói, onde moravam alguns parentes, para estudar no Colégio Salesiano. Iniciou a faculdade de Direito no Rio de Janeiro, mas se formou em Belo Horizonte, MG, em 1932, depois de ter participado, como repórter dos Diários Associados, da cobertura da Revolução Constitucionalista, em Minas Gerais — no front da Mantiqueira conheceu Juscelino Kubitschek de Oliveira e Adhemar de Barros.

Na capital mineira se casou, em 1936, com Zora Seljan Braga, de quem posteriormente se desquitou, mãe de seu único filho Roberto Braga.

Foi correspondente de guerra do Diário Carioca na Itália, onde escreveu o livro "Com a FEB na Itália", em 1945, sendo que lá fez amizade com Joel Silveira. De volta ao Brasil morou em Recife, Porto Alegre e São Paulo, antes de se estabelecer definitivamente no Rio de Janeiro, primeiro numa pensão do Catete, onde foi companheiro de Graciliano Ramos; depois, numa casa no Posto Seis, em Copacabana, e por fim num apartamento na Rua Barão da Torre, em Ipanema.

Sua vida no Brasil, no Estado Novo, não foi mais fácil do que a dos tempos de guerra. Foi preso algumas vezes, e em diversas ocasiões andou se escondendo da repressão.

Seu primeiro livro, "O Conde e o Passarinho", foi publicado em 1936, quando o autor tinha 22 anos, pela Editora José Olympio. Na crônica-título, escreveu: "A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde." De fato, quase tanto como pelos seus livros, o cronista ficou famoso pelo seu temperamento introspectivo e por gostar da solidão. Como escritor, Rubem Braga teve a característica singular de ser o único autor nacional de primeira linha a se tornar célebre exclusivamente através da crônica, um gênero que não é recomendável a quem almeja a posteridade. Certa vez, solicitado pelo amigo Fernando Sabino a fazer uma descrição de si mesmo, declarou: "Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem que dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento."

Foi com Fernando Sabino e Otto Lara Resende que Rubem Braga fundou, em 1968, a editora Sabiá, responsável pelo lançamento no Brasil de escritores como Gabriel Garcia Márquez, Pablo Neruda e Jorge Luis Borges.

Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de Rubem Braga é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza."

A chave para entendermos a popularidade de sua obra, toda ela composta de volumes de crônicas sucessivamente esgotados, foi dada pelo próprio escritor: ele gostava de declarar que um dos versos mais bonitos de Camões ("A grande dor das coisas que passaram") fora escrito apenas com palavras corriqueiras do idioma. Da mesma forma, suas crônicas eram marcadas pela linguagem coloquial e pelas temáticas simples.

Como jornalista, Braga exerceu as funções de repórter, redator, editorialista e cronista em jornais e revistas do Rio, de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. Foi correspondente de "O Globo" em Paris, em 1947, e do "Correio da Manhã" em 1950. Amigo de Café Filho (vice-presidente e depois presidente do Brasil) foi nomeado Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Santiago, no Chile, em 1953. Em 1961, com os amigos Jânio Quadros na Presidência e Affonso Arinos no Itamaraty, tornou-se Embaixador do Brasil no Marrocos. Mas Braga nunca se afastou do jornalismo. Fez reportagens sobre assuntos culturais, econômicos e políticos na Argentina, nos Estados Unidos, em Cuba, e em outros países. Quando faleceu, era funcionário da TV Globo. Seu amigo Edvaldo Pacote, que o levou para lá, disse: "O Rubem era um turrão, com uma veia extraordinária de humor. Uma pessoa fechada, ao mesmo tempo poeta e poético. Era preciso ser muito seu amigo para que ele entreabrisse uma porta de sua alma. Ele só era menos contido com as mulheres. Quando não estava apaixonado por uma em particular, estava apaixonado por todas. Eu o levei para a Globo... Ele escrevia todos os textos que exigiam mais sensibilidade e qualidade, e fazia isto mantendo um grande apelo popular."


Bibliografia:
CRÔNICAS:
- O Conde e o Passarinho, 1936  - O Morro do Isolamento, 1944 - Com a FEB na Itália, 1945
- Um Pé de Milho, 1948 - O Homem Rouco, 1949 - 50 Crônicas Escolhidas, 1951
- Três Primitivos, 1954 - A Borboleta Amarela, 1955 - A Cidade e a Roça, 1957
- 100 Crônicas Escolhidas, 1958 - Ai de ti, Copacabana, 1960 - O Conde e o Passarinho e O Morro do Isolamento, 1961 - Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália, 1964
- A Cidade e a Roça e Três Primitivos, 1964 - A Traição das Elegantes, 1967
- As Boas Coisas da Vida, 1988 - O Verão e as Mulheres, 1990
- 200 Crônicas Escolhidas - Casa dos Braga: Memória de Infância (destinado ao público juvenil)
- 1939 - Um episódio em Porto Alegre (Uma fada no front), 2002 - Histórias do Homem Rouco
- Os melhores contos de Rubem Braga (seleção Davi Arrigucci - O Menino e o Tuim
- Recado de Primavera - Um Cartão de Paris
- Pequena Antologia do Braga


ROMANCES:
- Casa do Braga

ADAPTAÇÕES:
- O Livro de Ouro dos Contos Russos - Os Melhores Poemas de Casimiro de Abreu (Seleção e Prefácio) - Coleção Reencontro Audiolivro - Cirano de Bergerac - Edmond Rostand
- Coleção Reencontro: As Aventuras Prodigiosas de Tartarin de Tarascon Alphonse Daudet
- Coleção Reencontro: Os Lusíadas - Luis de Camões (com Edson Braga)


TRADUÇÃO:
Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens.

SOBRE O AUTOR:
- Na Cobertura de Rubem Braga - João Castello
- Rubem Braga - Jorge de Sá
- Rubem Braga - Um cigano fazendeiro do ar - Marco Antonio de Carvalho

Visite a casa do autor em www.overmundo.com.br/guia/casa-dos-braga


No volume publicado, também de crônicas, "As Coisas Boas da Vida", em 1988, Rubem Braga enumera, no texto que dá título ao livro "as dez coisas que fazem a vida valer a pena". A última delas: "Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte — o assim chamado descanso eterno".

Dados obtidos em sítios da Internet, livros do autor e em trabalhos realizados por Luciano Trigo e João Máximo no jornal "O Globo".

Fome no Haiti

Crianças com fome no Haiti
O Dia Mundial da Alimentação é celebrado no dia 16 de outubro de cada ano para comemorar a criação em 1945 da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). O objetivo do Dia Mundial da Alimentação é conscientizar o conjunto da humanidade sobre a difícil situação que enfrentam as pessoas que passam fome e estão desnutridas, e promover em todo o mundo a participação da população na luta contra a fome. Todos os anos, mais de 150 países celebram este evento.  A fome atinge em todo o mundo cerca de 854 milhões de pessoas, segundo os dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo os dados da ONU, morrem 24 mil pessoas por dia devido ao problema da fome, e outras 100 mil devido a problemas de nutrição.


Kurt Vonnegut



Billy Pilgrim tornou-se volúvel no tempo. Assim começa o clássico de Vonnegut, um livro de culto antiguerra que se tornou um dos textos literários mais influentes do século XX. Billy viaja no tempo e no espaço; detém-se em diversos momentos da sua vida, incluindo na sua demorada visita ao planeta Tralfamadore, onde é exibido, juntamente com uma estrela de filmes pornográficos, num jardim zoológico, e na sua experiência na Segunda Guerra Mundial, onde (à semelhança do próprio Vonnegut) é feito prisioneiro de guerra e assiste à destruição de Dresden.

Kurt Vonnegut "Matadouro Cinco" bertrand, 2011

Kurt Vonnegut Jr. (Indianapolis, 11 de novembro de 1922 - Nova York, 11 de Abril de 2007) foi um escritor estadunidense de ascendência germânica.
Concluída a formação em Química, alistou-se no exército e combateu na Segunda Guerra Mundial. Feito prisioneiro, presenciou o bombardeamento de Dresden. Após a Guerra, formou-se em Antropologia.
É autor de vários romances, ensaios e peças de teatro, entre os quais se destacam Player Piano (Revolução no Futuro) de 1952, Cat’s Cradle de 1963, Slaughterhouse-Five (Matadouro 5) de 1969, Breakfast of Champions (Café-da-Manhã dos Campeões) de 1973 e Galápagos de 1985.[Sua última obra foi Look at the Birdie de 2009, livro póstumo com uma coleção de contos e ensaios.
Vonnegut morreu em 11 de abril de 2007, semanas após uma queda em sua casa em Manhattan que resultou em graves complicações cerebrais.

The Dave Brubeck Quartet: "Caravan"



sábado, 13 de agosto de 2011

Há gala na minha freguesia



É sábado e há feira na minha freguesia. Logo pela manhã cedo, os vendedores começam a juntar-se e a montar as suas tendas e bancadas. A maior parte é cigana que há muitas décadas vive em Portugal. Alguns nasceram aqui e tentam conciliar os seus genes nómadas com as obrigações e deveres dos cidadãos nacionais. Convivência por vezes difícil, pois misturam-se vários povos, etnias e clãs. Vieram da Índia, nos primórdios do séc. XI e as primeiras migrações para o continente europeu ocorrem após as invasões do sultão afegão Mahmud, às regiões do norte do sub continente indiano, onde aprisiona várias tribos e os vem vender como escravos na Europa, cavalgando através do planalto iraniano, por volta de 1050. Vivem da venda dos excedentes das fábricas de roupas, sapatos e vestidos fora de linha, artigos retirados do mercado ou contrafeitos, pequenas e insignificantes falsificações, lençóis, cobertores, toalhas, relógios, quinquilharia diversa, pulseiras, carteiras, anéis, óculos de sol, que nos garantem são da melhor qualidade internacional, directamente das grandes fábricas de Milão, Genéve e Paris.

Dizem-me que a contrafacção representa blá blá bla, não sei quantos milhões de prejuízo, blá blá blá à economia, blá, blá ,blá.
Mas hoje é sábado e há uma alegria contagiante na minha freguesia. É dia de comprar produtos mais baratos, porque a vida não está fácil e lado a lado com as roupas, as pulseiras e os relógios também temos os vendedores ambulantes de alimentação, dos produtos agrícolas, donos de quintas, agricultores, que trazem os familiares, a tia, a avó, a sobrinha, o irmão, para ajudar a vender os seus produtos – a batata, a cebola, o azeite, o vinho, os alhos, as couves e a fruta e aqui chegam ao sábado para escoar os géneros.

Compro meia dúzia de grossas batatas, verdadeiramente campestres, com uma cor saudável, do género que já não se vendem nos hipermercados, normalizadas pela UE, fluorescentes e doentias e alguma fruta de que gosto.

A feira está cheia de populares em chinelas, bermudas ou calções, que mostram grossas varizes, com chapéus esquisitos e t-shirts coloridas, movendo-se entre as barracas que cercam as bancadas, à sombra dos toldos de venda. É um enorme espaço ao ar livre, onde as mulheres de peitos descaídos sonham com mamas de silicone e convivem com indianos, mais calados, reservados e intrigantes, em roulotes, o Kamal que vende e conserta telemóveis em segunda mão, e brasileiros vivaços e malandrecos, de boné com a pala para trás e sorridentes, que vendem caipirinha, pastéis salgados e feijoada, sempre alegres e bem dispostos, e junto deles, as mestiças que vão abanando as ancas e acariciando a pele do companheiro, com gestos voluptuosos ao som dum chorinho, dum forró, ou da musica sertaneja (ai, ai, ai, aquilo de que o Ronaldinho Gaúcho e o Helton tanto gostam e eu também), desiludidos com Portugal e com saudades do morro; há mulheres africanas de farto traseiro a assarem milho e batata doce, para venda, transpirando junto aos fogões a carvão, ao som da kizomba, e ucranianos e romenos de pele clara e loiros– os povos do Leste. Todos procuram ganhar algum dinheiro extra, e aqui ninguém fala em fiscalizações, impostos, horários de abertura, alvarás…

Mas o que eu procuro mesmo, é o som que durante esta noite me martelou os ouvidos. Procuro e sinto a falta do pregão típico dos ciganos. É como música para os meus ouvidos. Se for preciso visto fato de gala para os ouvir. Ouvem-se ao longe as suas vozes estridentes, com o seu sotaque romani característico. Encontramos verdadeiras pérolas, quando falam usando das melhores técnicas de vendas, à altura dos melhores camelôs do Rio de Janeiro. Encontramos frases e ladainhas do mais típico sabor rural, do género:

-Ai que a cigana hoje está maluca, quer dar tudo!
-Ó menina olhe estas malas da Gucci!
-Ó menino olhe estas calças Levi´s verdadeiras, são as mesmas da televisão!
-Olhe para estas cuecas de categoria, são do Cristiano Ronaldo e do BecKham, são mesmo Armani!
-Ai que eu perco a cabeça, mas vendo-lhe estas calças por metade do preço só para você não ir dizer à sua amiga que a cigana enganou-a!

Chego a uma conclusão: país que é país e que se presa, não prescinde dos seus ciganos. Que cidadão não faz a sua falsificaçãozinha e a pequena falcatrua para fugir aos impostos? Como viveria eu sem estes pregões? Que país pode ter sequer a ambição de respirar sem este oxigénio fundamental?

Já tinha saudades de uma boa manhã de sábado na minha freguesia, junto aos meus amigos ciganos. Como é possível exigir alguma coisa a esta gente tão simpática e genuína, que se adapte ao nosso modo de vida, sempre fechados em apartamentos, frente ao computador, como eu, escrevendo pela noite adentro, e em centros comerciais? Sinceramente que não percebo… Os meus amigos ciganos transformaram-me o dia cinzento e soturno, num dia alegre, bem-disposto e optimista!

José Luis Ferreira




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Oh! Inglaterra, Inglaterra!



O cenário é de destruição, de pós-catástrofe como num filme do Mad Max ou do Armagedon.
Há uma semana que Londres é uma cidade sitiada. Durante a noite e por longas horas, Oxford Street caiu nas mãos dos amotinados. Carros desventrados pelo fogo, edifícios consumidos pelas chamas, montras partidas, autocarros incendiados, assaltos à luz do dia, lojas saqueadas por homens encapuçados e com o rosto coberto por “keffiyehs” da Intifada, constituem agora o enorme problema com que a polícia metropolitana de Londres (Met), terá que lidar nos próximos tempos.
Para Norte, em Tottenham, um dos bairros mais pobres do Reino Unido, com uma alta taxa de criminalidade e dez mil desempregados a reivindicarem trabalho ou subsídio de desemprego, um ambiente de revolta latente foi-se se acumulando ao longo dos últimos anos, e de repente a violência explode como uma bomba. Bandos de rapazes negros, moradores nas periferias, trocam mensagens pelos “Blackberry : “ If you see a brother SALUTI, if you see a fed (policia), SHOOT, ou pelo “Twitter,” e vão-se juntando até engrossar o novelo.
Os incidentes têm início a 4 de Agosto quando a polícia desenvolve um raid - “Operação Tridente”- no âmbito de investigações às actividades ilegais dentro das comunidades africanas e do Caribe. Mark Duggan era o fundador de um “gang” local, tinha quatro filhos e foi abatido a tiro pela polícia perto de Ferry Lane, em Tottenham. Familiares e amigos acusam a polícia de brutalidade e motivações racistas. A comissão independente de queixas contra a polícia faz uma análise ao sucedido e dá conta de ter havido uma troca de tiros, tendo o rádio pessoal de um agente sido encontrado com uma bala alojada. Cerca de 300 pessoas concentram-se frente à esquadra do bairro exigindo justiça. “Cocktails Molotov” são lançados contra carros patrulha e a polícia a cavalo e polícia de choque são chamadas para tentar dominar a situação. Os distúrbios espalham-se de Norte a Sul de Londres. A revolta atinge durante os dias seguintes os bairros de Croydon, Kilburn, Hackney, Enfield e Walthamstown até Brixton a Sul e Oxford Circus no centro, no coração da cidade. Nos dias seguintes tomará proporções inimagináveis, alastrando para cidades como Bristol, Cambridge, Birmingham, Nothingham e Liverpool. Chegará a West Bromwich, Wolverhampton e Manchester.
Mas esta não é uma revolta com contornos de conflito racial. Antes se assemelha a um claro desafio à autoridade do Estado e contra o esquecimento e ostracismo a que estão votados pelo governo.
Nos anos 80, as revoltas em Tottenham (1985), em Broadwater Farm, Toxteth, Brixton e em Liverpool (1981) também englobaram acusações contra a polícia por parte de imigrantes dos bairros pobres, de origem africana. Mas todos tinham razões de queixa. Durante o consulado da primeira-ministra Margareth Tatcher, uma grande quantidade de minas de carvão foram desactivadas, tendo como consequência que algumas antigas regiões industriais do interior britânico entraram numa profunda depressão, aumentando assustadoramente os níveis de desemprego, exclusão social e segregação nos bairros mais pobres. Assim, desta forma insidiosa, começa a engrossar o caldo em que se geram as tensões raciais e logo de seguida explodem violentos conflitos entre os ingleses empobrecidos ou desempregados e imigrantes estrangeiros, de origem asiática, africana e caribenha. Jornalistas que cobriram ambos os conflitos vêm semelhanças entre as duas épocas. Não há propriamente um racismo visceral, dizem, pois coexistem desta vez, várias etnias tanto de um lado (da polícia) como do outro (dos amotinados). No gigantesco bairro de Tottenham, onde reside o clube "Tottenham Hot Spurs" e que acolhe miúdos de várias raças para formação futebolística, convivem em paz proprietários de mercearias chinesas, de lojas turcas, cabeleireiros e pequenos negócios de  produtos africanos. O “Daily Telegraph” diz que estes desordeiros são o produto de uma nação em desmoronamento e de uma classe política que lhes virou as costas. Procuram, como nos anos 80, protestar em prol de uma sociedade mais igualitária. (continua)
José Luis Ferreira

Oh! Inglaterra, Inglaterra!





(continuação)

Londres, 13 Maio de 2010.
George Osborn, o ministro das finanças do novo governo inglês de coligação, de David Cameron (Tories), e os liberais democratas de Nick Clegg (Whigs), chega ao seu gabinete e encontra sobre a secretária, junto à agenda diária, um bilhete do seu antecessor:                                                     
-Caro colega, desejo-lhe felicidades para o seu trabalho, mas tenho pena, é que já não há dinheiro!
O novo executivo que irá gerir a Grã-Bretanha nos próximos cinco anos, terá como principal tarefa reduzir a despesa em 6 biliões de libras, o que equivale a um défice gigantesco de 11,1% do PIB.

Numa época de indecisão e incerteza nos mercados e com a economia global em franca desaceleração, repete-se a análise de J. K. Galbraith ao grande crash de 1929: má repartição de rendimentos, um sector de negócios comprometido “num roubo corporativo”, uma fraca estrutura bancária e o desequilíbrio na exportação e importação. Hoje em dia, na Grã-Bretanha é cada vez mais notória e escandalosa a desigualdade e a diferença de oportunidades de vida, de riqueza e salários entre os cidadãos, como alguma vez foi ao longo da sua História. No ano passado, o montante das fortunas das mil pessoas mais ricas do U.K aumentou para 30%, para 333,5 mil milhões de libras. As enormes tensões sociais no âmago da sociedade de consumo rasgam brechas e põem a nu as colossais fissuras. O capitalismo desenfreado e desregulado não conhece limites à sua ambição. Em 2008, para salvar os bancos, o governo de Gordon Brown triplicou o défice e aumentou a dívida pública. Especialistas e analistas políticos afirmam que a coligação liberal conservadora de David Cameron e Nick Clegg rompeu a base do contrato social britânico, que prevê boas universidades públicas, escolas de qualidade e seguro nacional de saúde, havendo mesmo quem afirme, que o tem feito “com uma fúria intensa,” impondo medidas de austeridade gravosas, reduzindo os orçamentos municipais e cortando subsídios a jovens desempregados. As medidas de apoio social e de integração das comunidades imigrantes têm sido reduzidas ao mínimo, o que leva a situações de pobreza extrema e miséria.
Não Há Soluções Fáceis

É fundamental que se desenvolva uma nova mentalidade e um novo paradigma dentro das cabeças das novas gerações de imigrantes africanos que procuram a Europa, na busca legítima de um sonho, na concretização de um objectivo de qualidade de vida, para si e para os seus descendentes. A Europa acusa hoje problemas estruturais muito graves, défices extremos e dívidas monstruosas. A maior parte dos países estão em sub crescimento ou crescimento zero, endividados aos fundos internacionais de financiamento, que cobram juros incomportáveis para comprarem as dívidas soberanas. O perigo de contágio entre as economias da zona euro é um sobressalto constante, dentro dos maiores e mais ricos países que outrora julgávamos intocáveis. A liquidez dos bancos é uma necessidade premente e os governos preferem recapitalizá-los e financiá-los do que investir na educação. As agências de notação financeira, de “rating,” tornaram-se um verdadeiro pesadelo para os governos que ultrapassaram os limites razoáveis da despesa do Estado. O imigrante africano não pode permitir-se mais sonhar com as ajudas e os apoios aos refugiados por parte dos governos europeus. Nenhum país em África está ainda hoje sob domínio imperial ou colonial. Embora haja, ou tem de haver, uma dívida de gratidão por parte das potências outrora ocupantes, pois a sua riqueza e prosperidade foi conseguida a maior parte das vezes à custa de trabalho escravo ou mal remunerado, como construção de linhas férreas, pontes, barragens  para benefício próprio da potência colonial e usurpando riquezas sem que nunca tenha havido a necessária compensação (e poderemos com toda a facilidade dar dezenas de exemplos), já não é possível esperar que um estado estrangeiro seja paternalista, faça estalar os dedos e apareça como por artes mágicas com um emprego de bom nível. A solução passará pela livre iniciativa, mais ou menos apoiada pelo tal Estado benevolente, mas que o vai sendo cada vez menos, e cada vez com menos vontade de intervir na sociedade.

Os imigrantes africanos, que demandam a Europa, normalmente sentem-se no direito de o fazer, umas vezes devido a laços de consanguinidade, outras por vontade de abandonar os seus países onde não conseguem ver a luz ao fundo do túnel para as suas vidas bloqueadas e sem a mais leve perspectiva de futuro. A dívida de gratidão de que falo é um facto e uma ideia que permanece nas mentes dos africanos. E não é totalmente vazia de sentido. Diz respeito à longa permanência dos países europeus nos seus países, como potências administrantes, ou aos  processos de descolonização que impõem a naturalização automática, como p. ex. no caso da França e a Argélia, ou Portugal e a Inglaterra, com inúmeros e complexos acordos, para todos os gostos, no âmbito da Commonwealth. É fatal que se pense em reciprocidade, pois quando damos algo de nosso, torna-se um reflexo natural que possa vir a pedir alguma coisa em troca. Por isso sentem que alguma coisa lhes é devido, como que uma repartição "à posteriori", dos lucros do passado. Mas hoje, de tal maneira as coisas se complicam, que para a Europa é impossível receber vagas de milhares de homens e mulheres que desembarcam na costa de Itália, em Lampedusa, ou são salvos vagando à deriva em barcos improvisados, escapando da morte, vindos da Tunísia, da Líbia, do Egipto, do Sudão, etc., querendo depois dar o pulo para a França, ou para qualquer outro país da Europa.

O Reino Unido da Grã Bretanha, por intermédio de grandes multinacionais como a BP, que multiplicam os seus lucros milhares de vezes ao ano, têm plataformas petrolíferas em quase todos os países produtores de petróleo. Regiões há, como na Nigéria, onde contribuem de forma criminosa para a contaminação do rios, do ambiente e envenenamento de milhares de populares com resíduos tóxicos resultantes de derramamentos e explosões nos oleodutos e nas maquinarias de plataformas acidentadas. Que se saiba ninguém é ressarcido de forma condigna por esses enormes prejuízos.

As grandes companhias de exploração de diamantes na África do Sul, como a DeBeers, no Congo, em Angola, e por essa África fora não fazem, nos países onde se instalam, os devidos pagamentos por séculos de exploração dos seus solos. Os trabalhos forçados foram prática corrente. A Inglaterra e a França têm beneficiado largamente destas situações. A título de exemplo, temos a Companhia das Indias Orientais, na Índia, que após a conquista de Bengala, nas últimas décadas do séc. XIX e na primeira metade do séc. XX , adoptou uma política que apenas visava alcançar o objectivo de contentar os milhares de funcionários gananciosos que para lá se deslocavam com a intenção de fazer fortuna do dia para noite. Há relatos que dizem: "sua única preocupação era extorquir algumas centenas de milhares de libras aos nativos, e retornar para Inglatera o mais cedo possivel, para exibir as fortunas recém-adquiridas. Imensas fortunas foram assim acumuladas em Calcutá, enquanto trinta milhões de seres humanos eram reduzidos à mais negra miséria". O caso do Congo é outro exemplo da maior brutalidade nas relações entre o indigena e o explorador europeu. Em 1878 o rei Leopoldo II da Bélgica envia H. M. Stanley em missão à Africa central. Pela astúcia, Stanley convence os chefes tribais a assinarem "tratados" autorizando o estabelecimento de um império comercial que abarcava cerca de 900 000 milhas quadradas. Procede então a uma exploração impiedosa, obrigando os nativos, sob coacção física, a extrair o latex e a caçar elefantes nos quais extraiam o marfim. Leopoldo da Bélgica confisca  todas as terras que não eram directamente cultivadas pelas comunidades locais, transformando-as em "propriedade governamental". Os nativos ficam desta forma submetidos  a um opressivo sistema fiscal, que incluia impostos pagáveis em borracha e marfim e sob a forma de prestações de trabalho. A partir do sec XX o Congo fornece também diamantes, urânio, cobre, algodão, azeite de coco, etc. Pode-se dizer que o Congo e a Índia foram das mais lucrativas possessões europeias imperialistas, transformando as economias das metrópoles em países prósperos e desenvolvidos. As minas de carvão, de ouro, platina, de ferro, de cobalto, manganês, etc, as plantações de banana, milho, café, algodão e as itermináveis florestas de madeira de alta qualidade, estão nas mãos normalmente de companhias estrangeiras que vêm engrossando os seus lucros ao longo de séculos, sem que se constitua um mecanismo internacional de fiscalização e indemnizações por perdas e danos. Normalmente associadas a ditadores locais corruptos, eternizam-se na exploração dos recursos naturais sem que ninguém lhes peça contas.

Após a II Grande Guerra Mundial, a Alemanha indemnizou com milhões de dólares as vitimas do Holocausto. Não existe memória em África, que alguma vez tenham sido indemnizadas as vítimas da escravatura, esse holocausto esquecido, em relação ao qual a “Shoah” dos judeus foi uma brincadeira de crianças, com todo o respeito pelas vítimas dos carniceiros nazis.
Mas remoer o passado apenas serve para armadilhar ainda mais o presente. Só conhecendo o passado a fundo, podereis não esquecer, mas perdoar e seguir em frente com os olhos e os ouvidos limpos e transparentes, porque lavados e purificados pelo filtro do conhecimento.

Citar Martin Luther King e o seu “Sermão da Montanha,” serve apenas para confundir os menos esclarecidos, pois na época do Dr. King, a comunidade negra sofria um ultraje tremendo, com o Klu Klux Klan activo e a segregação racial e o apartheid como um dispositivo legalizado e instituído pelo Estado americano.
Os imigrantes africanos recentes, ou os seus filhos, nascidos ou não na Europa, terão que desenvolver formas de subsistência material dentro do tecido social, e mais que isso, deverão procurar com toda a honestidade, de uma forma limpa, sem preconceitos, sem tabus nem ideias feitas, fazer um esforço genuíno de integração, dentro dos países de acolhimento. Não virá mal nenhum ao mundo que se procure aprender e respeitar a História e a língua do país em que decidimos viver. Uma procura diária de integração e assimilação, será o “leitmotiv” que levará a uma maior compreensão mútua e convívio pacífico. Aceitar as ajudas com uma mão e com a outra lançar uma pedra, não penso que seja a forma mais correcta de viver.

O que aconteceu em Inglaterra nos últimos dias é um mimetismo que se inspira na primavera árabe. Mas ao contrário desta, e basta isto para que tudo mude, em Inglaterra pode-se contestar e agir contra o governo de forma correcta e civilizada. Não se corre o perigo de sofrer prisões arbitrárias e tortura da parte das autoridades que se eternizam no poder em monarquias de criação divina. A democracia inglesa é das mais antigas do mundo e prevê mecanismos que podem ser usados por grupos de reivindicação e contestatários. Todas as faculdades da democracia deverão ser esgotadas. Eleição de líderes credíveis das comunidades, exigência de deputados e representantes das minorias étnicas nas câmaras baixa e alta do Parlamento inglês, criação de jornais com dinheiro e donativos da comunidade, publicação de estudos que comprovem a desafectação de verbas por parte do governo em jornais e revistas de grande circulação, formação de associações culturais, e de debate político, constituição de grupos de manifestantes e organização de manifestações ou marchas pacíficas à porta do Parlamento, artigos e “posts” no Facebook e nos Blogs, mensagens no Twitter, tudo isso serão formas legítimas de pressão aos governantes e então veremos como talvez olhem o imigrante africano de uma outra forma, não apenas da parte do governo, mas também da sociedade civil. As grandes empresas e multinacionais também poderão ser captadas e chamadas a participar, de uma forma hábil e inteligente no esforço de integração dos novos imigrantes.

O imigrante africano deverá tomar estes dias do trriveis do "Verão Inglês", como uma lição para o futuro. Não há soluções fáceis nem conclusões definitivas, nem a Democracia ocidental é perfeita. Mas é sua obrigação adquirir uma nova mentalidade e uma outra matriz de pensamento condizente com a vertente “on the economics” de um mundo ultra competitivo, desenfreadamente neoliberal e agressivo. Esta deverá ser a sua única preocupação.

Se quisermos adoptar como lema o sonho de Martin Luther King no seu célebre “Sermão da Montanha,” em Memphis, Tenessee, ou junto à margens do Rio Potomac, em Washington DC, frente ao majestoso Memorial ao Presidente Abraham Lincoln no seu fabuloso discurso “I Have a Dream”, então deveremos repetir com ele:

"Teremos dias difíceis pela frente, mas isso não importa para mim agora, porque eu subi ao topo da montanha e lá de cima vi a terra prometida”… (Martin Luther King, Abril de 1968)

José Luis Ferreira

domingo, 7 de agosto de 2011

De Mogul a Gangster



«Só há um tipo de unidade possivel num mundo tão diverso quanto o nosso, é a unidade do método em vez da do objectivo; a unidade da experiência disciplinada »

 Walter Lippman, 1920


  Rupert Murdoch é um gangster à velha maneira de Chicago dos anos vinte, disfarçado de adepto de baseball, com o boné dos New York Giants e uma gravata sobre o colarinho branco mostrando as cores e o emblema da Universidade de Columbia.
É um sobrevivente das grandes famílias da “Cosa Nostra” da segunda e terceira década do séc. XX, com métodos sofisticados dos yuppies dos anos 80/90. Já não cobra protecção aos proprietários das lojas, dos talhos, dos armazéns, já não divide nem disputa a cidade por territórios sob o seu domínio, ou zonas privadas de influência como o West e o East Side New York, West Brooklin, New Jersey, ou Long Island para os seus negócios obscuros.
Abandonou a” machine gun”, a metralhadora Thompson de tambor rotativo e a Winchester de cano curto, trocou o Cadillac, o Ford Sedan preto e o chapéu Stetson sinistro, sobre os olhos, pela base de dados dos super servidores do credível “Wall Street Journal”, pelas câmaras de última geração da “Fox News”, ou pelas máquinas ultra rápidas de impressão do “News of the World,”- o seu veículo privilegiado de espionagem – a cobertura perfeita, que lhe permitiu penetrar no mundo duvidoso do “show business,” dos políticos de topo e das personalidades internacionais, para mais facilmente satisfazer os seus apetites de abutre transcontinental.
Os seus principais assessores na hierarquia da “News Corporation,” funcionam como “capos”, às ordens desse “Godfather” que é Rupert Murdoch. Através dos métodos usados pelo NoW, como a escuta e intercepção de chamadas telefónicas (“hacking”), Rebekah Brooks, directora do NoW, Neil Wallis, o ex-director executivo e Andy Coulson também director do mesmo jornal e antigo assessor de imprensa do Primeiro-Ministro inglês James Cameron, seguiram e escutaram com os seus acólitos, conversas do foro íntimo e intervieram na vida privada de centenas de figuras públicas, infiltrando-se mesmo no gabinete do P. M. da Grã-Bretanha. Apagaram mensagens do telemóvel de uma rapariga de 13 anos desaparecida, Milly Dowler, que depois foi encontrada morta por um serial killer, com a finalidade de obter espaço na memória do microchip, prejudicando dessa forma a investigação de homicídio.
Gordon Brown ex-PM inglês foi alvo também de escutas, na altura em que desempenhava as funções de ministro das finanças de Tony Blair, sendo Rebekah Brooks acusada pelo jornal “Guardian” e pela BBC de chantagear a família Brown, através dos jornais “Sun” e “Sunday Times,” também propriedade do magnata Murdoch e de ter acedido a dados confidenciais da conta bancária e ao relatório médico do seu filho que se suspeitava sofria de uma doença hereditária grave.
Com o encobrimento e participação de alguns elementos de topo da Scotland Yard, nas pessoas de Sir Paul Stephenson e John Yates, ambos comissários da policia municipal de Londres e havendo sinais destes terem sido corrompidos, facto que os levou a pedirem a demissão, conseguiram durante anos a fio saber e obter notícias valiosas de inúmeras vidas privadas, tornando a todos vulneráveis e sujeitos aos seus desígnios de domínio total.
Dois funcionários da Scotland Yard já foram indiciados nas investigações às escutas telefónicas pelo “NoW”. Soube-se pelo “Guardian”, que foram descobertos e-mails que provam que os policias - responsáveis pela segurança da família real – terão vendido ao jornal uma agenda de contactos pessoais da família real entre eles da Rainha Isabel II e do Príncipe Carlos, por mil libras (cerca de 1135 euros). De acordo com os registos, um executivo da “News Corporation” terá combinado o suborno com um jornalista do tablóide.
Rupert Murdoch nasceu na Austrália como poderia ter nascido em Boston, na Irlanda ou na Sicília e daqui ter emigrado para América para construir o seu império. Herdou um pequeno negócio de família em Adelaide e transformou-o num gigantesco conglomerado da imprensa mundial, tornando-se o maior “mogul” da mídia internacional.
Se eu fosse realizador de cinema dos anos cinquenta chamaria Mickey Rooney para interpretar a personagem deste “typhoon.” Mickey Rooney saberia vestir a pele deste homem, como alguém que vive suspenso acima de tudo e todos, pairando nessa nuvem entre o crime declarado e o mundo semi-legalizado dos magnatas dos EUA.
Uma pequena noticia com dez linhas apenas, numa coluna e num lugar destacado de um tablóide inglês, ou no “New York Post,”(órgão de imprensa também do império Murdoch), chega para que uma multinacional veja as suas acções serem desvalorizadas na Bolsa e com isto afectar centenas de postos de trabalho, uma licença de construção de um arranha céus em Manhattan, ou em Tóquio, no valor de milhões de dólares pode ser avalizada ou não, um juiz ou um júri podem sentir-se compelidos a mudar o sentido de voto num julgamento mediático, um político, um gestor, ou um governador de estado podem sentir-se pressionados e chantageados para se demitirem, por motivos fúteis, um adultério ou um comportamento menos lícito podem transformar-se num acontecimento a nível global.
Rupert Murdock é um fóssil de outra época já em vias de extinção. No entanto, comanda um império dos “mass media” difícil de derrubar e que pode ainda estar envolvido em mais casos desta vez nos EUA, pois é também acusado de escutar familiares das vitimas do 11 de Setembro e novamente em Londres, em escutas aos parentes das vítimas dos atentados de Londres.
Alexis de Tocquevile escreveu que os jornais eram uma necessidade numa sociedade democrática: «Devíamos menosprezar a sua importância se acreditássemos que apenas garantiam liberdade; eles mantêm a civilização» (1969).

Na grande tradição do jornalismo americano, encontramos o “New York Journal” de William Randolph Hearst ou o “New York World” de Joseph Pulitzer. O “Washington Post” de Bob Woodward e Carl Bernstein demonstraram-nos que o mundo do jornalismo de investigação pode não ser este lodaçal em que os gangsters do “News of the World” se movem.

Walter Lippman queria em 1920, promover a dignidade profissional dos jornalistas e proporcionar-lhes um treino «em que o ideal do testemunho objectivo é cardinal». (Lippman, 1920).

É necessário que as sociedades avançadas procurem mecanismos eficazes de regulação da imprensa livre para que o vale tudo não seja o seu modo de actuação principal. A dedicação dos jornalistas à justiça e à verdade, seguindo regras de objectividade e lealdade para com os leitores terá que ser a trave mestra da linha editorial e permitirá manter um controlo real sobre os repórteres.

José Luis Ferreira


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Camila de sangue quente


Camila regressou das férias. Durante duas semanas passeou pela fronteira Espanha/França, esteve dois dias em Andorra, adorou ver as cidades e vilas fronteiriças, com o seu comércio sempre muito activo, observou as montras de roupa para mulher, viu como os machos espanhóis são atrevidos, e como os homens franceses vivem mergulhados nas últimas tendências da moda, olhou para os hábitos diferentes nessas paragens, comeu petiscos extravagantes, experimentou a cerveja dos dois lados da fronteira e viu de perto a grande cordilheira dos Pirinéus.
Camila respira agora outro ar, o seu cabelo negro está mais brilhante, a sua boca mais carnuda, a pele morena mais bronzeada, pintada de ouro, pois acaba de receber directamente os raios ultra violeta das montanhas.

É uma rapariga típica de Lisboa. A ela eu chamo, “good stuff,” e garanto que tenho razão. Aos 26 anos, conhece as melhores diversões da cidade, percorreu já o Algarve quase de lés a lés, em acampamentos de Verão, em excursões de trabalho, entre amigos, ou em festas de arromba pela madrugada adentro. Conhece o Gerês, a Norte, passeou com os pais pela magnífica serra e quando voltou dizia que nunca mais veria coisa mais bonita na vida. Esteve no Minho há alguns anos, em Vila Nova de Cerveira e adorou a restauração, os lençóis limpos da pousada onde pernoitou, o céu límpido e as nuvens transparentes e luminosas.

Já passeou por duas grandes capitais europeias e não tem grande interesse por agora em ir aos States. Camila é assim; hoje veste uma calça castanha que lhe molda as formas sem a tornar provocante, largas nos tornozelos, com uma dobra de dois dedos de largura, “comme il faut”, e uma camisa resplandecente, branca, com imensos botões minúsculos, com a etiqueta do fabricante virada ao contrário, junto a um bico do seio. Calça umas sandálias escolhidas a dedo, de tiras consistentes, mas que lhe dão ao pé maleabilidade total de movimentos. Hoje soltou o cabelo, mas já a vi com um rabo-de-cavalo, à índia americana, por cima da cascata dos seus cabelos soltos e livres.

Companheira de uma boa pândega, os seus sentidos anseiam por um fim-de-semana longe do trabalho, onde, funcionária rigorosa e aplicada como é, já recebeu dois louvores em anos seguidos. Camila é assim e por isso nutro por ela um sentimento especial, de grande afectividade e pelo meu peito passa um frémito de orgulho, por me reconhecer seu amigo. Estende-me a mão, na extremidade de um longo braço, imediatamente quando me vê, aperta com calor e o seu sorriso expande-se, largo e prazenteiro. É uma mulher que pergunta, há nela uma ânsia de saber, o saber da vida, de experiência feito; ao primeiro sinal instintivo que ouviu qualquer coisa que não sabe, Camila debruça-se sobre o computador, à cata no “Google” do significado daquilo que se disse. Uma nova cidade, um novo país, um novo costureiro em Paris, turbulência na Síria, o gigantesco défice dos EUA, uma nova actriz em Hollywood, Angelina Jolie no Quénia, Camila vai procurar, nada lhe pode passar ao lado. É como se ela policiasse o mundo e nada poderá ser feito sem o seu conhecimento e participação.

Vejo-a a fumar os seus cigarrinhos enrolados à mão, para poupar, sorvendo o ar com gestos comedidos e calmos, olhos divertidos e saltitantes, vivos e curiosos como dois berlindes de azeviche, rasgados nos cantos, o seu nariz forte e destacado, que me leva a perguntar se não haverá genes negróides no sangue que lhe corre nas veias.

Camila tem mais uns dias de férias, dentro de duas semanas e hei-de tentar saber para onde vai, sou curioso e tudo o que ela faz me interessa, é realmente um “case study”, um verdadeiro exemplar, modelo dos tempos modernos. Para os meus olhos cansados, gastos e de óculos na ponta do nariz, o ar refrescante de Camila é o bálsamo para os meus dias sem sentido.

José Luis Ferreira

Djenabo é nome de mulher


Djenabo é nome de mulher. Provém da etnia balanta e é oriundo do arquipélago dos Bijagós, na Guiné, das terras e ilhas chuvosas, ou açoitadas pelos ventos áridos do deserto do Sahara, na sua orla interior. Os portugueses, quando atracaram a estas terras, em 1440, encantaram-se e até hoje contam histórias e lendas das mulheres de traços fortes, e da terra que lhes pregava a partida da malária e da mosca tsé-tsé, que os prostrava hirtos de medo, mas que os magnetizava, presos a este solo lamacento durante os séculos do domínio imperial.

Ternos a amar, transformam-se em guerreiros poderosos nos momentos de ódio extremo.

Fascinam-me as crenças, os mitos, a religiosidade, admiro a facilidade com que o ser humano se prende a histórias de seres fantásticos, aparições, gnomos, espíritos, lendas e profecias. Não tenho o dom da crença, não fui tocado pelos desígnios da fé.

Djenabo é muçulmana e em criança foi marcada na face com uma tatuagem que a distingue das outras mulheres. O seu corpo foi talhado no rochedo, como um barco é esculpido no melhor toro da Guiné. É supersticiosa e obediente dos códigos do seu povo. Aceita a condição de terceira esposa, porque acha que é assim que deve ser e não é nada de mais aceitar um tal estatuto.

Para Djenabo, não existe a dicotomia Bem/Mal. O Bem e o Mal são dois círculos que se cruzam, se interceptam e se completam como um todo. Cada um carrega o outro,como dois irmãos siameses.

 Da sua maneira de vestir, garrida, no seu traje de túnica até aos pés de cores berrantes e um turbante do mesmo pano, arrematado por um laço sobre a testa altaneira, se depreende que a cultura e o modo de vida ocidental não lhe assentam sobre os ombros.

 Djenabo é um poço de alegria e boa disposição. Temos ambos um pacto de entendimento. Ela estará sempre bem-disposta, e eu, pelo meu lado, estarei sempre irascível, de mau humor, que logo se dissipa, desarmado pelas suas brincadeiras.

Hoje pedi-lhe um beijo.

-Djenabo,não dás um beijo ao amigo?

-Não posso, estou com o coiso (não percebi o termo, mas é fácil de entender), hoje não posso beijar homem.

Tal e qual, Djenabo não perde o que ouviu há décadas atrás, não será ela a cortar a sagrada correia de transmissão que lhe liga aos seus antepassados.

À saída estendo-lhe a mão. –Bom, Djenabo dá cá a mão, até amanhã.

Estende-me a mão. Tem as extremidades dos dedos pintados com uma espécie de tintura amarela carregada. As duas mãos.

-Que é isso Djenabo? pergunto.

-É uma coisa da minha terra, quando tirar, as unhas ficam mais bonitas!

Amanhã pedir-lhe-ei a receita, vou tentar vender às profissionais da manicure. Pode ser que arranje negócio.

Djenabo é nome de mulher.

 José Luis Ferreira

 

domingo, 31 de julho de 2011

A Mão de "Lula"

Segundo o Globo, quem tenta segurar Jobim é o ex-presidente Lula. Ele defendeu o ministro em evento no Rio:
Lula sai em defesa de ministro e tenta convencer Dilma a não demitir Jobim

Como sempre faço quando posso e tenho tempo, dou uma passagem rápida pelos títulos dos fantásticos jornais brasileiros on-line e por vezes não me agrada o que vejo, que me desculpem os meus amigos brasileiros.
Tem-me chamado a atenção a hiperactividade do ex-presidente Luís Inácio “Lula” da Silva. Penso que exagera no voluntarismo que se impõe, quando tenta ajudar e aconselhar a Sra. Presidenta Dilma Rousseff.

Todos os dias a imprensa brasileira dá voz à interferência e à actividade, não direi na sombra, mas demasiado interventiva do ex-presidente na acção governativa. Será que Lula da Silva ainda mantém algum cargo oficial em Brasília, no Palácio do Planalto ou junto da Sra. Dilma Rousseff ?
Comparo com o“modus operandi” dos ex-presidentes em Portugal. O Dr. Jorge Sampaio, antecessor do Presidente Cavaco Silva, só de longe em longe vem deixar uma opinião - embora sejam de forças políticas diferentes e adversários, devo dizer- sobre a actividade do governo ou da presidência e muito menos vem tentar influenciar, (embora seja conselheiro de um órgão superior que é o Conselho de Estado, por inerência) a actividade governativa.

O Dr. Mário Soares, que eu saiba, nunca tentou interferir na presidência do Dr. Jorge Sampaio, sendo do mesmo partido político; e ainda o mesmo Mário Soares, um dos principais intervenientes no processo de descolonização, ex- primeiro ministro e ex-presidente da República reeleito, e o grande impulsionador da entrada de Portugal na CEE, raramente (embora se saiba da sua forte influência do na vida política portuguesa) aparecia de forma tão declarada e ostensiva ao lado de José Sócrates, o antigo PM (estes da mesma cor política), como o faz o ex-presidente Lula da Silva.
A meu ver, embora todos saibamos que é o seu mentor e amigo privilegiado, estes gestos impetuosos, francos e abertos, apenas menorizam a Presidente, passando-lhe um atestado, não digo de incompetência, mas de fraqueza e menoridade política. Já é altura da Presidenta caminhar sozinha, e do presidente Lula passar o seu tempo na pesca e perto dos seus netos, numa bela casa de campo, junto a um lago, ou na praia, a desfrutar a recompensa pelos muitos e tumultuosos anos de luta política. Bem o merece. Ou será este "The South American Way", como dizia a canção da fabulosa Carmen Miranda?

José Luis Ferreira

Os equívocos de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira, no seu blog "O Abrupto," escreveu em 23.07.2011

Custa-me ver muitas pessoas, incluindo numa afirmação recente o Presidente da República, dizer que Nelson Mandela foi “sempre” um homem de paz, "sempre" um partidário de métodos pacíficos de luta política, uma espécie de Gandhi moderno. Devemos imenso a Mandela no período a seguir à sua libertação, e aí sem dúvida ele fez muito por uma transição pacífica, onde as mortes que ocorreram (a maioria delas no conflito com o Inkhata de Buthelezi) não são de sua responsabilidade. Se há Prémio Nobel da Paz bem merecido é o seu. Porém, Mandela tem uma longa carreira política antes da sua prisão e mesmo como dirigente do ANC na prisão, teve especiais responsabilidades no Umkhonto we Sizwe, o braço armado do ANC, que conduziu uma luta violenta contra o regime do apartheid, tudo menos pacifista. “Sempre” partidário de métodos pacíficos, não é, pura e simplesmente, verdade.

Pacheco Pereira parece estar mais uma vez, a cometer um equivoco. A África do Sul e o mundo devem a Mandela não só pelo que ele fez depois da sua libertação, pois conseguiu unir as várias etnias e tendências políticas, tendo por consequência travado um processo que se poderia descontrolar e transformar o país num autêntico pântano de sangue, como antes foi a figura inspiradora de toda a luta de libertação, não só na África do Sul, como em toda a África e no Mundo.

Nelson Mandela era o presidente honorário do ANC e também o comandante em chefe do Umkhonto we Sizwe, e todas as acções armadas contra o regime racista tinham a sua aprovação, genericamente falando. A partir da prisão de Roben Island Mandela era o farol que iluminava todos aqueles que queriam partir as grilhetas que os amarravam aos regimes coloniais. P. P. deve compreender isso. Senão nunca há-de entender a luta de libertação dos povos sujeitos a dominação imperial ou colonial. Como vê, então, os movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas? Deveriam também fazer como Gandhi ou Martin Luther King, que advogavam o pacifismo?
Será que P. P. não consegue estabelecer um paralelismo entre a luta de libertação por métodos violentos e as acções que em 1640 levaram os conjurados portugueses a sacudirem o jugo dos espanhóis, resultando daí a morte do traidor Miguel de Vasconcelos, fiel ao trono dos Habsburgo em Madrid, e todas as consequências políticas e militares resultantes daí, do envolvimento do estado português para expulsar os holandeses de Angola e as guerras do Brasil contra os estados vizinhos, mormente a guerra do Paraguai?

E a Revolução Francesa ? E a Revolução de Outubro na Rússia? E a Guerra da Independência dos EUA? E a Guerra da Secessão nos EUA? E a Segunda Grande Guerra não foi feita para destruir e aniquilar o invasor nazi? Não foram estas guerras violentas mas legítimas?

Em “Cry the Beloved Country,” obra-prima da literatura mundial dos anos quarenta que vossa mercê bem conhece, tenho a certeza, Alan Paton começa por evocar o sagrado solo sul-africano. Pois é por esse mesmo solo sagrado que Nelson Mandela deu os melhores anos da sua vida. E é por esse solo sagrado que a violência é legitimada. Não queira confundir a violência altruísta da luta por um ideal, pelo amor à pátria e contra os abusos extremos contra o homem e a sua dignidade, com a violência das ruas, daqueles que matam por um par de “blue jeans”, por um relógio ou por uma mão cheia de anéis e pulseiras de ouro. Da mesma forma que eu considero da mais elevada postura moral a defesa intrasigente da sagrada terra portuguesa.

Também me custa ver como P. P. não consegue compreender que não havia outro caminho, senão o da violência, para conseguir remover o regime de P.W. Botha (Die Groot Krokodil, o grande crocodilo, como era chamado em afrikaans). Como queria que fosse? Como ele faz, sentado à volta de uma mesa, filosofando e esgrimindo flores de retórica com luvas de pelica, com o seu maciço ventre sobrealimentado, ostentando as cores rosadas dos ambientes super protegidos da Assembleia da República ou dos lugares luxuosamente estufados do Parlamento Europeu? Ou como fez o Estado Novo que se aliou, à revelia do resto do mundo, vergonhosamente, ao regime sul-africano?

P.P. tem de compreender que o mundo não é um jardim de crisântemos, poucas vezes acontece como em Portugal, uma Revolução dos Cravos e não basta estar atrás de uma mesa, a debitar palpites e opiniões muito bonitas (que eu gosto) e muito bem fundamentadas, para mudar o mundo.
Parece-me que por vezes distrai-se e acontecem-lhe falhas de memória…mas cá estamos nós para avivar-lhe estas coisas.

José Luis Ferreira

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Noruega não é um exemplo de tolerância, de democracia e de respeito pelos direitos humanos

por Ricardo Santos Pinto











Anda tudo muito espantado pelo facto de o brutal acto de Anders Breivik ter acontecido na Noruega, um país tão tolerante e onde a democracia funciona de forma tão exemplar.
Não é verdade que a Noruega seja esse exemplo de tolerância e de respeito pelos direitos humanos. Aliás, o regime político norueguês está muito longe da perfeição e, tal como acontece em todos os países onde o capitalismo selvagem assentou arraiais, soçobrou de forma clara face ao poder do dinheiro e dos interesses dos grandes grupos económicos. Já abordei, em tempos, o caso Jan Fredrik Wiborg, um engenheiro civil assassinado, presumivelmente pelo Estado norueguês, em 1994. Na altura da morte, num hotel de Copenhaga onde a queda acidental de uma janela era impossível, Wiborg transportava uma pasta de documentos comprometedores para o Governo norueguês, documentos esses que provavam a falsificação de informações na escolha da localização do novo Aeroporto de Oslo. Uma longa reportagem da imprensa da época demonstra que Wiborg morreu a lutar contra os Ministérios, as Agências Estatais e o Parlamento norueguês.

«Os noruegueses étnicos
em breve serão a minoria» -
 capa do jornal Finans
Nesse mesmo post, dava conta de que o Wikileaks revelou, em 2010, o nebuloso negócio da compra de 48 aviões F-35, em 2008, pelo Estado norueguês a uma empresa americana, em detrimento de um concorrente sueco e de um consórcio europeu. A troca de mensagens diplomáticas é reveladora da teia de interesses que então se formou para condicionar a decisão política que foi tomada. Em ambos os casos, o Partido Trabalhista, social-democrata, estava no Governo. Em 1994, a primeira-ministra era Gro Harlem Brundtland, em 2008 era Jens Soltemberg, o actual primeiro-ministro.
No que diz respeito ao sistema político do país, a actual composição do Parlamento é a melhor prova da falta de tolerância de parte significativa do povo norueguês. O segundo Partido mais votado nas últimas Legislativas, em 2009 (como já o fora em 2005), foi o Partido do Progresso – o FrP – com mais de 600 mil votos, correspondentes a mais de 24%. Elegeu 41 deputados.
Ora, o FrP é um Partido de Extrema-Direita, que contesta a entrada de imigrantes no país e que rejeita em absoluto o auxílio social para refugiados e trabalhadores que chegam de forma ilegal à Noruega. Tem uma posição claramente pró-Israel e pretende um maior controle da ajuda governamental aos países em desenvolvimento. Aliás, é o Partido onde militou durante 7 anos Anders Breivik, que ali ocupou vários cargos de confiança. À beira do FrP, até o CDS parece eivado de valores altamente democráticos. 

Quando 25% da população de um país vota neste tipo de ideias racistas e xenófobas, dificilmente poderemos estar a falar de uma sociedade tolerante e atenta aos direitos humanos.
Não é só nas eleições, infelizmente, que a sociedade norueguesa evidencia o seu carácter racista. Nos últimos anos, os episódios de discriminação e violência contra imigrantes, em especial muçulmanos, têm aumentado de forma preocupante. Através de grupos de extrema-direita e, pior ainda, através do próprio Estado.
Essa discriminação começa, frequentemente, na fronteira. Aí, os funcionários do organismo equivalente ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras utilizam técnicas específicas, baseadas na raça, para revistar membros de minorias étnicas. Não porque haja suspeitas acerca de determinada pessoa, mas apenas porque essa pessoa não é caucasiana.
Quanto aos Centros de Acolhimento de Imigrantes, onde são albergados todos aqueles que esperam por uma autorização de residência (que chega a demorar, quando chega, 18 meses), caracterizam-se, sobretudo na área de Oslo, pelas más condições que apresentam. A revolta dos detidos é frequente e até o Centro Norueguês contra o Racismo foi da opinião de que os incidentes que vão surgindo não são uma surpresa.
Porque uma criança nascida na Noruega não se torna automaticamente norueguesa, havia nos inícios de 2010, segundo o ACNUR, quase 3 mil apátridas no país. Desses, 95% eram palestinianos, os restantes essencialmente bálticos. Muitos deles tiveram de renunciar à sua Nacionalidade para obterem a Nacionalidade norueguesa, mas esta, por algum motivo, foi-lhes retirada, daí serem apátridas, bem como os seus descendentes nascidos em solo norueguês.
Hoje em dia, o aumento de obstáculos à entrada de muçulmanos no país, sobretudo palestinianos (no passado, foram afegãos, somalis, iraquianos, chechenos, sérvios do Kosovo e eritreus) levou mesmo Kari Partapuoli Helene, Presidente do Centro Norueguês contra o Racismo, a dizer que «um dos grupos mais vulneráveis da sociedade mundial está agora a começar a ser um dos grupos mais marginalizados da sociedade norueguesa.»
Ainda no que diz respeito ao racismo latente nos serviços públicos do país, originou uma grande controvérsia a morte de uma imigrante sexagenária, por ataque cardíaco, depois de nove chamadas para o 112 que não obtiveram resposta. Em vez de enviarem uma ambulância, os operadores chamaram primeiro a Polícia. Acabaram absolvidos, apesar de fortemente criticados pelo organismo ministerial respectivo e apesar de terem sido acusados de violar a lei.
Em Maio de 2010, a autorização de funcionamento de uma escola primária muçulmana provocou uma forte revolta na cidade de Oslo, cujas autoridades chegaram a recorrer da decisão. Isto num momento em que já existiam quase cem escolas cristãs no país.
Na sequência do caso Ali Farah (muçulmano deixado ao abandono no centro da cidade pelos serviços de Emergência Médica), a LDO – Equality and Anti-Discrimination Ombud – fez um levantamento geral do trabalho contra a discriminação no sector governamental. Quase um terço das empresas estatais nem sequer respondeu.
Antes ainda de entrar nos grupos de extrema-direita que espalham o terror e a violência junto das comunidades islâmicas, não faltam os exemplos de discriminação racial na sociedade civil norueguesa. Diversos estudos e estatísticas têm-no comprovado.
Um estudo de 2009 mostrava que os noruegueses têm mais medo dos muçulmanos do que do aquecimento global e da crise financeira mundial. Metade dos entrevistados não-muçulmanos acreditava então que os valores do Islão são incompatíveis com os valores fundamentais da sociedade norueguesa. O que é profundamente errado no caso dos muçulmanos noruegueses, que se preocupam menos com a religião (apenas 18% participam em cerimónias religiosas) do que aquilo que os restantes noruegueses pensavam (o estudo revelou que a maior parte da população acreditava que 62% dos muçulmanos frequentava as mesquitas do país).
Aliás, a maior parte dos inquiridos acredita que apenas 37% dos muçulmanos do país querem uma maior integração na sociedade norueguesa, quando na realidade esse número é de 94%; e pensam que 65% dos muçulmanos noruegueses consideram imoral a sociedade do país, quando afinal só 15% dos muçulmanos têm essa opinião.
A maior parte dos entrevistados acredita que 43% dos muçulmanos querem introduzir a Sharia na Noruega e que 64% querem sanções mais severas para a publicação de desenhos e fotografias ofensivas (contra respectivamente 14% e 42% na realidade).
A conclusão do estudo foi evidente: «O povo em geral é profundamente ignorante sobre as atitudes de seus concidadãos muçulmanos. O facto é que a religiosidade forte e aversão à sociedade norueguesa só será expressa por uma minoria muçulmana.»
O medo de que os imigrantes venham a dominar a Noruega é tanto que o jornal Finans (na imagem) fez as contas e chegou à conclusão de que em 2030 o número de imigrantes em Oslo será superior ao número de nativos. No texto da reportagem, diz-se textualmente: «O problema é que há menos cultura norueguesa. Os políticos não vêem os desafios com os quais nossos filhos serão confrontados». E os desafios dos «nossos filhos», para o jornal, são coisas tão caricatas como as crianças norueguesas não conseguirem fazer amizades na creche e os seus amigos imigrantes não comparecerem, apesar de convidados e apesar de não haver porco na mesa, às suas festas de aniversário.
Os próprios políticos não se têm coibido de discutir abertamente as suas preocupações relativamente à diluição da cultura norueguesa através do aumento da imigração vinda de países com valores e religiões diferentes. A maior parte desses políticos pertencem a Partidos de Direita e muitos deles ao FrP, a que já me referi anteriormente.
No campo do emprego, a discriminação contra os imigrantes é evidente e atinge também os seus descendentes nascidos na Noruega.
Um estudo recente demonstra que os filhos de imigrantes, mesmo os nascidos no país, têm mais dificuldade em encontrar emprego (taxa de desemprego de 7,3 %) do que noruegueses «puros» com as mesmas qualificações (2,2%). Uma outra conclusão desse estudo é paradigmática: os candidatos a emprego com primeiro ou último nome que pareça ser muçulmano continuam a ser muito menos propensos a receber respostas aos seus pedidos de emprego.
Segundo um estudo da Universidade de Oslo, de 2008, um imigrante africano com o mestrado de uma universidade da Noruega e notas tão boas como as de um norueguês tem apenas 30% de hipóteses de conseguir um emprego depois de terminar os estudos. As próprias rendas das casas são mais elevadas em cerca de 10% para os grupos minoritários.
A já referida Kari Partapuoli Helene, presidente do Presidente do Centro Norueguês contra o Racismo, tem dedicado parte do seu tempo a avaliar a discriminação contra os palestinianos a residir na Noruega. São dela as palavras que se seguem: «A sociedade em geral olha para as minorias com desconfiança. Especialmente vulneráveis são os de origem muçulmana. Mas quão perigosa é realmente uma menina muçulmana que estuda medicina? Que ameaça aos valores da Noruega constitui um rapaz muçulmano estudando para ser polícia ou carpinteiro? Que isto seja a mensagem de hoje: Como toda a gente, estes jovens têm um direito absoluto a ser considerado, tratados e respeitados como indivíduos e como os noruegueses.»
Já depois do ataque de Anders Breivik, é um dos jornais noruegueses mais importantes, o Aftenposten, que reconhece o peso do racismo na Noruega de hoje e em tudo o que tem vindo a acontecer: «O medo é aumentado pela mistura potencialmente explosiva de recessão económica, aumento do racismo e um sentimento anti-islâmico ainda mais forte.»
O racismo e a discriminação contra os imigrantes são visíveis, como já disse, nas mais diversas áreas da sociedade norueguesa. Aliás, é usual os noruegueses receberem na sua caixa de correio panfletos anónimos de grupos de extrema-direita.
Apenas alguns exemplos. O Centro Norueguês contra o Racismo fez um teste à noite de Oslo através de uma visita a 5 estabelecimentos de diversão. E chegou à conclusão de que, em 3 desses estabelecimentos, grupos de jovens que não pareciam ser de origem norueguesa foram rejeitados, enquanto que os grupos étnicos de jovens noruegueses nos mesmos locais foram imediatamente admitidos. Alguns dos jovens envolvidos começaram por sua própria iniciativa a recolher uma amostra maior. O ministro da Inclusão e Igualdade condenou publicamente o racismo em casas nocturnas e a LDO abriu um inquérito. Em Outubro, a LDO concluiu a sua investigação, que culminou com a conclusão de que 6 bares e discotecas discriminavam os clientes em função da raça. Apesar de recomendarem que fosse retirada a esses estabelecimentos a licença da venda de álcool, como prevê a Lei, a verdade é que não houve relatos de licenças retiradas durante o ano.
No futebol, tornaram-se alvo de grande polémica os actos de racismo contra um jogador norte-americano, o defesa-central Robbie Russel, a jogar no Sogndal. Num jogo contra o Brann, os adeptos desta equipa cuspiram e insultaram-no ao longo de todo o jogo, tendo chegado mesmo a agarrá-lo pela camisola quando ele se aproximou da linha lateral. Todas estas acções foram acompanhadas ao longo do jogo por hinos racistas.
Em Maio de 2010, chegou ao Tribunal para a Igualdade o caso de uma mulher que se recusava a trabalhar com uma agente imobiliária muçulmana e que exigia uma agente cristã ou não-muçulmana para avaliar a sua casa. O Tribunal determinou que foi um acto discriminatório perante a lei.
Alex Falcão, um brasileiro imigrado na Noruega, publicou em 3 de Janeiro de 2011 um texto de opinião no Aftenposte que começa com a frase «Imigrantes ou Seres Humanos». Depois de relatar o preconceito que sente diariamente, apesar de todos os esforços de integração, acusa os noruegueses de dividirem a sociedade entre «eles» e «os outros», ou seja, os noruegueses e os imigrantes. Conta até que uma vez foi intimidado por um grupo de jovens em Oslo que gritavam «morte aos imigrantes».
No que toca ao sistema de ensino, Alex Falcão refere que os livros escolares em que se aprende o norueguês são praticamente uma lavagem cerebral e são concebidos de forma a abafar outras culturas. Conta mesmo o caso de uma aluna norueguesa que se recusou a fazer dupla com uma colega num exame de primeiros socorros só porque ela era estrangeira.
Com este tipo de mentalidade, que se vai generalizando, não admira que a violência contra os imigrantes não tenha parado de aumentar nos últimos anos. E se no caso de Anders Breivik ainda não se esclareceu cabalmente se foi um acto isolado ou de um grupo organizado, a verdade é que na Noruega não faltam exemplos dos dois géneros. Desde as agressões a imigrantes, praticadas por indivíduos racistas, até a um sem-número de assassinatos, perpetrados por organizações de extrema-direita, as ocorrências são quase diárias.
Os Centros de Acolhimento, pela sua natureza, costumam ser alvos preferenciais de indivíduos isolados ou de grupos organizados. Um dos casos mais conhecidos ocorreu em Outubro de 2009, quando alguns jovens atiraram pedras através duma janela num centro em Fossanaasen. Um bilhete com símbolos nazis foi anexado às pedras com a mensagem: «Vão para casa, para o vosso país.» No mês anterior, o Centro de Namsos fora atacado três vezes. Símbolos nazis foram atirados para o interior, notas com mensagens racistas foram deixadas na porta de entrada do centro e três janelas foram partidas. Na mesma altura, um centro de refugiados em Sjoholt foi atacado com armas de fogo. Ninguém ficou ferido, mas as balas entraram pelas janelas.
O caso Ali Farah foi um dos que deu brado na Noruega. Somali de nascença, mas com Nacionalidade norueguesa, estava com a família num piquenique quando foi agredido na cabeça por um homem a quem se dirigiu com o objectivo de solicitar que parasse com o comportamento desordeiro. Sangrava abundantemente quando chegou a Ambulância. Ao ser levantado do chão, urinou involuntariamente, o que fez com que o paramédico lhe chamasse porco e se recusasse a transportá-lo, preferindo chamar a Polícia antes de ir embora. A polémica na imprensa foi enorme e vários políticos verberaram o comportamento racista dos paramédicos. Estes foram suspensos e multados, mas ilibados na Justiça.
Nos últimos anos, vários foram os assassinatos por motivos raciais ou religiosos. Por ordem cronológica, temos em primeiro lugar Arve Beheim Karlsen, morto em 23 de Abril de 1999. Nascido na Noruega, mas de origens índias, afogou-se no rio Songdal ao fugir de dois jovens que corriam atrás dele com ameaças de morte e insultos racistas, entre os quais a frase «vamos matar o nigger». O Tribunal reconheceu as motivações racistas mas recusou-se a relacionar essas motivações com a morte de Arve Karlsen e condenou os dois jovens a 1 e 3 anos de prisão.
Benjamim Hermansen foi morto em 26 de Janeiro de 2001 e foi provavelmente o homicídio que mais agitou a sociedade norueguesa. Filho de pai ganês e mãe norueguesa, mestiço, tinha apenas 15 anos. Foi esfaqueado até à morte, em Oslo, por dois indivíduos do grupo neo-nazi BootBoys, que foram condenados a 17 e 18 anos de prisão. Ficou provado que os assassinos tinham saído de casa com o objectivo de encontrar um estrangeiro e encontraram-no junto a um parque de estacionamento.
Foram organizadas várias marchas de homenagem ao jovem. A 27 de Janeiro de cada ano, é entregue o Prémio Benjamim Hermansen. O álbum «Invicible», de Michael Jackson, foi-lhe especialmente dedicado. Ao invés, Clara Dorothea Weltzin, uma mulher de Oslo de extrema-direita, deixou em testamento 250 000 coroas norueguesas a um dos assassinos.
Mahmed Jamal Shirwac foi morto em 23 de Agosto de 2008. Taxista somali, pai de 6 filhos, foi morto em Trondheim com 13 tiros. O autor do crime, membro de um grupo neo-nazi, espalhava pela internet o seu ódio racial e assumia que iria matar muçulmanos se alguma ocasião se proporcionasse.
«Ambos morreram como vítimas de ódio contra a pele, e contra a religião. Benjamin e as outras vítimas merecem mais de nós do que tochas. A sua memória merece a nossa fidelidade, a sua morte, os nossos esforços incansáveis para proteger o direito de todos a uma vida de paz e segurança em um país que pertence a todos nós», referiu a propósito destes assassinatos a já referida Presidente do Centro Norueguês Anti-Racismo.
No meio disto tudo, a Polícia norueguesa conseguiu notar nos últimos anos apenas um ligeiro aumento da actividade de grupos extremistas de direita e chegou a sugerir que o movimento seria fraco, sem um líder e com pouco potencial de crescimento. Quanto ao líder, parece que já está encontrado.
O mais engraçado de tudo – embora não tenha graça nenhuma – é que a Noruega trata mal os imigrantes, mas não trata melhor determinadas camadas da sua população, como é o caso das mulheres. Um país que se ufana da igualdade concedida às mulheres em todos os sectores da sociedade mas que, na prática, não as protege devidamente.
O crime de violação é o melhor exemplo da afirmação anterior. A situação é de tal forma grave que a Amnistia Internacional já teve de repreender por diversas vezes as autoridades do país. Nos últimos anos, a situação tem-se agravado, com um aumento de 30% das violações consumadas. 45% das vítimas têm menos de 20 anos. No entanto, com mais ou menos provas, só 16% dos casos é que chega a Tribunal e só 12% dos violadores são condenados.
Segundo diversos estudos realizados na Noruega, a violação não é uma prioridade para as autoridades de investigação policial. Os suspeitos raramente são interrogados e, quando o são, o interrogatório é pouco exaustivo e mal planeado. A cena do crime é investigada em apenas metade das denúncias. As provas forenses muitas vezes não são usadas.
Como não podia deixar de ser numa sociedade com as características da norueguesa, a percentagem de mulheres violadas pertencentes a grupos minoritários é anormalmente elevado.
Segundo a Amnistia Internacional, os países nórdicos não lutam o suficiente contra a violência sexual, sendo que na Finlândia a situação ainda é mais grave do que na Noruega. Um dos relatórios produzidos pela AI é elucidativo: «Apesar dos progressos realizados para a igualdade entre os homens e as mulheres em numerosos domínios das sociedades nórdicas, quando se trata de violação, as disposições penais não continuam adequadas para proteger. A violação e as outras formas de violência sexual continuam a ser uma realidade alarmante que afecta as existências de milhares de jovens raparigas e mulheres, a cada ano em todos os países nórdicos».
Curiosamente, ainda há bem pouco tempo acabou por ser condenada a pena de prisão uma mulher norueguesa por ter violado um homem, fazendo-lhe sexo oral enquanto ele estava a dormir. Deve ser a tal igualdade entre homens e mulheres de que os noruegueses se ufanam.
Embora muito mais houvesse para dizer, já não fica dito pouco. Ainda assim, fica dito o suficiente, em minha opinião, para se poder chegar à conclusão de que a Noruega é um país muito pouco recomendável no que diz respeito à tolerância, à democracia e aos direitos humanos.
Perguntar-me-ão se um louco como Breivik não poderia aparecer em qualquer país do mundo. Talvez, não sei. Mas o que sei é que as características políticas e sociais da Noruega tornaram-se o viveiro ideal para o desenvolvimento da sua ideologia. E sei também que o acto de Anders Breivik, apesar das proporções, não foi um acto isolado. Definitivamente, ele não está sozinho.


Extraído do Blog "CINCO DIAS"
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