sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
"O QUE TENTAM DIZER AS ÁRVORES", por António Ramos Rosa
Árvores
O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.
António Ramos Rosa, Animal Olhar, Árvores, p. 84
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Caça furtivo americano RQ-170
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
Registo de Interesses
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| simbolos maçónicos |
Quanto a mim, esta história do registo de interesses para verificação de incompatibilidades dos titulares de cargos públicos e a obrigação de declararem a sua filiação maçónica, não passa de folclore e de música para entreter os incautos. É uma cínica ideia, jogada à praça pública, para desviar as atenções e apenas para lançar cortinas de fumo sobre as verdadeiras questões.
Por este andar, trataremos os políticos como meras crianças irresponsáveis ou inimputáveis, coisa que eles declaradamente não o são.
O nó do problema coloca-se quando perguntamos o que andam estes sujeitos a fazer lá metidos dentro, à volta de símbolos anacrónicos e estapafúrdicos? Porque não há inquéritos rigorosos por parte do Ministério Público? Porque é que não há uma investigação séria, exaustiva, competente e permanente, a nível nacional, a estas Lojas e Ordens que proliferam pelo país? Porque não há coragem para penetrar a fundo no amago destas casas e casinhas, centros nevrálgicos de muito tráfico de influencias que envenenam a sociedade portuguesa? Porque é que nunca há suspeitas sobre estas associações com nomes esquisitos e hábitos restritos? Serão eles melhores que o comum dos mortais? Porque é que um simples comerciante, feirante ou empresário não vende uma agulha que não tenha à perna toda a ASAE , como um enxame de abelhas à volta do mel, enquanto estes cavalheiros se passeiam, ostensivamente, cantando e rindo, trambicando tudo e todos? Porque é que não se acaba de uma vez com esta mentalidade de quintalinhos e terrenozinhos, destes senhores grão-mestres, saudosistas, oligárquicos e feudais?
Não é a maçonaria que faz o homem; a maçonaria e as religiões, as crenças e as seitas existem há centenas e há milhares de anos e nem por isso o Homem melhorou a sua índole. Cada vez há uma maior diversidade de cultos religiosos, prometendo o céu e a Terra e não há notícia de que a evolução do Homo Sapiens esteja a caminhar no sentido do seu aperfeiçoamento intrinseco ou da pureza de princípos. Não seremos mais ou menos responsáveis por pertencermos à Irmandade maçónica, assim como não sou melhor por ser católico ou protestante, xiita ou salafita, budista ou espiritualista.
Não é por andar de esquadro e compasso (símbolos maçónicos) na mão a medir os meus atos que serei melhor indivíduo, nem amanhã me tornarei um homem probo, se me converter ao Islão ou for para as Testemunhas de Jeová.
A liberdade de associação, de religião, de expressão e a livre opção política devem ser princípios estritamente respeitados, sendo por conseguinte inegociáveis. Um país livre deve ter como lei fundamental o respeito pelas opções de consciência dos seus cidadãos.
Nos EUA, a primeira emenda, que faz parte da lei fundamental e da constituição americana defende exatamente esse direito. Aliás é, em torno dessa lei básica que os Pais da Nação edificaram a grande nação americana:
Retirei da Wikepédia alguns excertos da Constituição do EUA para melhor ilustrar estas considerações:
A Primeira Emenda (a I Amendment) da Constituição dos Estados Unidos da América impede, textualmente, o Congresso dos Estados Unidos da América de infringir seis direitos fundamentais. O Congresso passa a ser impedido de:
Estabelecer uma religião oficial ou dar preferência a uma dada religião( a "Establishment Clause" da primeira emenda, que institui que institui a separação entre a Igreja e o Estado)
- Proibir o livre
exercício da religião;
- Limitar a liberdade
de expressão;
- Limitar a liberdade
de imprensa;
- Limitar o direito de livre associação
pacífica;
Mas não é por atribuirmos ao cidadão plena liberdade de escolhas e pensamento, que quem de direito deve afrouxar a vigilância e fiscalização sobre estas organizações de entreajuda suspeita.
Prefiro que se legisle no sentido inverso: aqueles que incorrerem em faltas graves passíveis de causar prejuízo ao país serão criteriosamente investigados, julgados e condenados com agravamento das penas, devido à situação de exceção em que nos encontramos.
Comparo esta situação do registo de interesses para os
maçónicos, à legislação sobre as armas nos EUA. Muito sucintamente, digo que
lá, a lei autoriza a posse armas, bastando para isso que comprovem ter o
cadastro limpo. Em contrapartida há penas pesadas para os crimes de sangue.
Porque não seguir este princípio, salvando as devidas proporções? A
Constituição dos EUA diz, na sua Segunda Emenda, sobre o direito de possuir uma
arma: "Sendo necessária à
segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o
direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido
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Estamos, portanto, perante uma situação dúbia, de contornos pouco claros. Não há vontade política nem jurídica para mexer seja no que for. Há forças demasiado poderosas e gente muito bem colocada na hierarquia do Estado, que se deixa capturar pela troca de favores e benesses, para que alguma coisa seja feita, tendo por finalidade o desmantelamento do monstro multicéfalo.
Entretanto, vai-se gastando milhões e milhões de euros em reportagens de televisão, em diretos ou talk shows, cobrindo e dando voz a declarações vazias e sem sentido, apenas para gastar tempo e entreter o pobre pacóvio, o bom do Zé Povinho.
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Estamos, portanto, perante uma situação dúbia, de contornos pouco claros. Não há vontade política nem jurídica para mexer seja no que for. Há forças demasiado poderosas e gente muito bem colocada na hierarquia do Estado, que se deixa capturar pela troca de favores e benesses, para que alguma coisa seja feita, tendo por finalidade o desmantelamento do monstro multicéfalo.
Entretanto, vai-se gastando milhões e milhões de euros em reportagens de televisão, em diretos ou talk shows, cobrindo e dando voz a declarações vazias e sem sentido, apenas para gastar tempo e entreter o pobre pacóvio, o bom do Zé Povinho.
J.L.F.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Lealdade Maçónica
O professor José M. Anes é um homem com uma grande nobreza
de caráter, que não haja a mais pequena dúvida. É o presidente do Observatório
de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo. Pertence à maçonaria e foi
grão-mestre da Grande Loja Regular de Portugal. Apadrinhou Jorge S. Carvalho -
o espião de quem se fala, suspeito de tráfico de influências - na sua entrada
como membro da “società”. Até aí tudo bem. Não lhe fez o devido inquérito
interno, como é uso e é da praxe entre os maçons, nos seus ritos iniciáticos;
saltou o regulamento da Ordem, como ele mesmo admitiu. Também não é por aí. Mas
já há algum tempo que estava desiludido com o seu pupilo, por saber que este
usava e abusava do alto cargo que desempenha, dentro dos serviços secretos da
República, o SIED. Tinha demasiados sonhos de grandeza e usava esse cargo e a
própria maçonaria, em “benefício dos seus interesses pessoais e privados”,
assim disse José M. Anes, que sabia há muito de tudo isto. Deixou passar os
meses e os anos, ajudou a criar e alimentou o monstro. Nada disse, fez que nada
se passava. Também, que diabo, qualquer um fecha os olhos a estas minudências!
Ora bem, sr. Dr., mas então não acha que está com os tempos
trocados? Se o acusasse de má conduta ética e propusesse o seu afastamento, há
um ou dois anos, ou mesmo quando começou o inquérito parlamentar onde ele agora
está a ser ouvido, o circo era outro. Mas o sr. não é garganta funda, e então vem falar numa altura em que se bate na
maçonaria com todas as ganas, vem para limpar o bom nome da Orden, da sua Loja,
e o seu, vem apenas defender o seu quintalinho, o seu terrenozinho. Ora,abóboras!
Não considera que deveria ter estabelecido um fio condutor, entre o alto cargo
que ocupa e aquilo que sabe e que vem prejudicando o país, tendo como base ou
ponto comum, o seu sentido patriótico ?
Não acha, sr. presidente, que tem o passo e o compasso
trocados? Veja que agora a dança é outra e já não estamos na era do foxtrot, ou
das valsas vienenses. É que o tempo agora, é de vampiros, sr. presidente! Há-os
por todo o lado, no cinema, na literatura, na televisão, nas altas esferas do
governo e até apadrinhados por si. E já agora pergunto: sabe de mais algum caso,
no ventre da baleia, dentro da Irmandade. Será este, caso único, ou teremos mais
declarações a conta-gotas?
Cada vez se torna mais atual a canção de Zeca Afonso. “Os
Vampiros”: Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”.
Esse sim, estava bem à frente, e nunca trocou o passo!
Jan.2011
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
O que o Facebook não é
INSIDE THE FACEBOOK
Quando Mark Zuckerberg e os seus amigos da Universidade de
Harvard, nos USA, inventaram o Facebook, tinham nas mentes a ideia de usar este
programa como um meio de ligar os estudantes entre si, tornar mais fácil a
comunicação e o convívio, através de mensagens, no “campus”, nos refeitórios,
nos dormitórios ou em casa. De tal maneira foi aceite, que hoje, todos o
sabemos, é o mais visitado website mundial na Network. Presidentes da
república, empresas, jornalistas, gestores ou meros divulgadores de produtos,
ninguém dispensa uma página atualizada no Face. Devido ao seu alto grau de eficácia
e poder de interação instantânea, rapidamente podemos enviar fotos, textos e
comentários. Ditadores e governos autoritários já caíram dos pedestais e, onde
e quando menos se espera, projetam-se e armam-se revoluções através do
Facebook. É portanto um espaço livre e amplamente democrático, onde a liberdade
de expressão, que é a trave mestra e baliza fundamental numa sociedade
civilizada, circula infinitamente, transmitindo e espalhando informação, arte e
cultura, para aqueles que se tornam usuários e querem participar a nível
global.
Também poderá funcionar (porque não?) como meio de sedução,
para namoros, para pedidos de casamento, para gestos e atos apaixonados,
conversas prolongadas ou curtas, particulares ou em grupo, enfim, é todo um
mundo de fruição e prazer que poderemos extrair desta poderosa ferramenta.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
O Real eo Imaginário
"O fanatismo próximo do fantasmagorismo, toma o imaginário pelo real e as fantasias pela verdade".
D.Manuel Clemente (Bispo do Porto)
sábado, 7 de janeiro de 2012
A Mulher Feliz, por António Ramos Rosa
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| desenho de António R. Rosa |
e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.
É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!
Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais íntima distância.
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| desenho de António R. Rosa |
Aventais há muitos
Aventais há muitos. Por mim, esses cavalheiros da maçonaria até podem sair à rua vestidos com um belo fato de quinhentos e muitos euros e colocar-lhe um avental por cima - tapa vergonhas - bordados à mão pelas amantes, com rosas chá e exalando bafientos odores a cânfora e naftalina. Há-os de todas as qualidades e feitios. À “chef”, com a tradicional colher de pau, para dona de casa, mais ou menos berrantes, para ferreiros, pintores, para tratadores de cavalos, para sopradores de vidro, o que há de aventais por aí… Até podem andar em casa nuzinhos em pelo só com o avental por cima, com a salsicha gravada a cozinhar para o namorado, como nos mostra o cinema americano em estereótipos de casais “gays”. Já agora acrescentem-lhes e pendurem-lhes ao pescoço aqueles colares e adereços estapafúrdicos e desatualizados, que são os símbolos das lojas maçónicas.
A sacrossanta oposição socialista desempenha um papel cada vez mais angelical e vazio. Faz que diz mas não diz. Parece que vai mas não vai, fica-se pelos curros, deixa-se estar por trás das baias. António José Seguro é o ator ideal para este papel discreto de “supporting role”
sábado, 31 de dezembro de 2011
Uma Visita Inesperada
O Sr. Ricardo era um sem-abrigo que há muitos anos vagueava pelas ruas de Lisboa, pedindo esmola nas estações do metro, do comboio, em praças ou jardins e junto aos centros comercias de maior movimento. Aqueles que o conheceram noutros tempos, contam a sua história, a história de uma vida feliz, de trabalho, porém interrompida por uma trágica sucessão de acontecimentos que o arrastaram para a rua, perdendo a família, o emprego e transformando-o num andrajoso, num maltrapilho. Dormia em vãos de escadas, em prédios abandonados, ou junto do calor das montras das lojas, aquecendo-se do frio, ou abrigando-se da chuva. Os seus pertences resumiam-se a um velho colchão de espuma, que ele enrolava a uma trouxa que trazia às costas, e a uma pequena mochila onde guardava os restos de comida que ia surripiando nas traseiras dos restaurantes, ou que os conhecidos lhe iam oferecendo para matar a fome e enganar o seu triste e bizarro destino.Dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Uma História Comum (1)
Nota do autor: Esta é uma história de ficção. Nada disto aconteceu. É tudo fruto da minha imaginação. A partir de um ponto qualquer da História Universal e do percurso do Homem, desenvolvi algumas ideias que tinha latentes e construí esta peça sobre a violência e a crueldade medievais.
Nem tudo o que os relatos oficiais nos contam é verdade. Também não sabemos como realmente as coisas aconteceram. Então, podemos extrapolar, ficcionar, imaginar um acontecimento isolado e criar algo sob uma perspetiva diferente, ou simplesmente considerá-lo plausível, mais próximo da realidade.
Quero deixar um aviso a quem se sentir tentado a ler. Há relatos nestas páginas que poderão afetar as consciências mais sensíveis. Se esse é o seu caso, então não leia, p.f. Bem haja J..L.F.
A Chegada
A Chegada
Uma bala da escopeta vazou-lhe os intestinos e o indígena logo ali ficou caído na areia da praia, quando olhava atónito para a pequena embarcação carregada de homens brancos armados com aqueles utensílios compridos e esquisitos, que largavam sobre eles pedaços de metal quente e penetrante como grossas agulhas, idênticas às daqueles arbustos com que eles lutavam diariamente quando entravam selva adentro, à caça de animais e plantas comestíveis.
O segundo indígena quis lançar a comprida lança aguçada, de metal pontiagudo, contra os soldados de rostos ameaçadores, hirsutos, com roupas de couro trabalhado, armaduras e elmos de ferro, mas também ele ficou caído, atingido pela segunda descarga de chumbo grosso.
Descansaram os marinheiros, abrindo alas para o frade jesuíta, que poisou as suas benditas e virginais sandálias pela primeira vez nas terras inóspitas de África, onde o bruto gentio, arredio da mão divina, estava ali para receber a palavra do Senhor de modo a largar a condição animal e tornar-se, durante os próximos séculos, filho de Cristo e entregue para sempre nas mãos de Deus.
Chegados à praia, logo ali foi aberta cova funda onde o frade espetou uma bela cruz de dois metros de altura, esculpida em madeira nobre de carvalho e ornamentada em baixo relevo pela história e pelos feitos cristãos e generosos da Ordem de Jesus, em terras distantes e hostis, do Brasil às Índias misteriosas. Por Deus, pelo Papa e pelo Reino, podia ler-se em cima de tudo. Ao lado, dois metros à direita, o sólido marco oficial da nação, ostentando o brasão e as armas da Casa Real. Ajoelharam-se os quinze homens e foi rezada uma pequena oração, agradecendo aos anjos e à Virgem, a graça da descoberta.
Havia dois mortos no areal. O grupo desceu das embarcações e atrás da primeira barca amarou mais uma e de seguida mais duas, três, depois eram cinco, sete, e após algumas horas estava a linda enseada pejada de homens sujos e esfomeados, de comportamento agressivo e brutal e de chatas escuras de nogueira. No mar, algumas centenas de metros adiante, fundeavam três caravelas capitaneadas por D. Rodrigo González Navarro, almirante de Sua Santidade o Papa Benedito Sétimo, ao serviço de Sua Majestade, a Rainha María Stewart, a Almejada, inglesa do seu primeiro marido, esposa do Conde de Salamanca y Vigo, príncipe consorte de Sua Alteza Real.
Os dois moribundos revolviam-se com dores, golfavam ampolas de sangue quente, mas os marinheiros olhavam para os fuzis, carregavam-nos de pólvora e discutiam a localização daquelas terras, à espera da embarcação principal, que traria o comandante, D. Rodrigo González, corsário de todos os mares e oceanos, comandante de naus e caravelas, à descoberta de novos e admiráveis mundos.
Finalmente desceu D. Rodrigo Navarro, de rosto preocupado mas feliz, por detrás de uma barba de semanas, magro, com a comprida espada balançando à cintura, a ponta da bainha tocando o botim ou roçando a terra desconhecida dos negros, seguido de perto pelo frade, que, de olhos no chão, lhe segredava conselhos e, de mãos unidas e dedos apontando para os céus, rezava e acariciava o terço entrelaçado entre as falanges. Mas finalmente todos brindaram com o vinho escuro tirado dos bornais e dos cântaros, todos riram alto e um ar de felicidade terrena pairou sobre o entardecer flamejante dos céus de África.
Para chegar àquele lugar do mundo, bastava aos navegadores descer para Sul, vindos dos portos de França, Espanha e Portugal, em direção às Canárias, com o vento de feição, empurrando as velas e navegar, ladeando a costa, até ao Golfo da Guiné, passando pelo Gabão, Congo, Angola e dando de caras com a Namíbia e o Botswana e depois alcançar o Cabo. Eram reinos desconhecidos, terras sem nome e escassamente habitadas, onde a malária, a febre tifoide e outras epidemias dizimavam povoados inteiros e os navegadores, que se aventuravam por aquelas paragens. Muitos meses se passavam até que encontrassem vivalma ou portos de abrigo, onde pudessem reabastecer-se de géneros. Os últimos postos avançados de comércio que encontraram, situavam-se nas Gran Canárias, onde havia um aquartelamento de europeus, traficantes de escravos e vendedores de víveres para os indígenas, com um pequeno embarcadouro, e aí puderam fazer algumas trocas. De momento estavam na imensa bacia entre o Gabão, os Reinos do Congo e o norte de Angola onde desfrutavam da bonomia do mar e do calor tropical.
Havia dois mortos no areal. O grupo desceu das embarcações e atrás da primeira barca amarou mais uma e de seguida mais duas, três, depois eram cinco, sete, e após algumas horas estava a linda enseada pejada de homens sujos e esfomeados, de comportamento agressivo e brutal e de chatas escuras de nogueira. No mar, algumas centenas de metros adiante, fundeavam três caravelas capitaneadas por D. Rodrigo González Navarro, almirante de Sua Santidade o Papa Benedito Sétimo, ao serviço de Sua Majestade, a Rainha María Stewart, a Almejada, inglesa do seu primeiro marido, esposa do Conde de Salamanca y Vigo, príncipe consorte de Sua Alteza Real.
Os dois moribundos revolviam-se com dores, golfavam ampolas de sangue quente, mas os marinheiros olhavam para os fuzis, carregavam-nos de pólvora e discutiam a localização daquelas terras, à espera da embarcação principal, que traria o comandante, D. Rodrigo González, corsário de todos os mares e oceanos, comandante de naus e caravelas, à descoberta de novos e admiráveis mundos.
Finalmente desceu D. Rodrigo Navarro, de rosto preocupado mas feliz, por detrás de uma barba de semanas, magro, com a comprida espada balançando à cintura, a ponta da bainha tocando o botim ou roçando a terra desconhecida dos negros, seguido de perto pelo frade, que, de olhos no chão, lhe segredava conselhos e, de mãos unidas e dedos apontando para os céus, rezava e acariciava o terço entrelaçado entre as falanges. Mas finalmente todos brindaram com o vinho escuro tirado dos bornais e dos cântaros, todos riram alto e um ar de felicidade terrena pairou sobre o entardecer flamejante dos céus de África.
Prontamente foi enviado um grupo de reconhecimento para o interior da floresta, ao mesmo tempo que um outro abria uma clareira, a golpes de espada e machados, depositava equipamentos e víveres, acendia fogueiras e montava a tenda principal que albergaria D. Rodrigo Navarro, o destemido capitão.
Os dois curiosos gentios jaziam na praia, os corpos retorcidos. Morreram debaixo de estertores e gemidos medonhos. Foram afastados e empurrados para longe do caminho, para lá da baía, para debaixo dos juncos. Mas quando a noite se fez sobre a terra e os homens das caravelas já cantavam bêbedos junto dos fogos crepitantes, cinco guerreiros rastejavam assustados, por entre as palmeiras, no meio das raízes húmidas e lentamente recolhiam os corpos ensanguentados dos companheiros, com as vísceras e a cara desfeita pelos tiros de curta distância. Levaram-nos para o fundo da floresta, andando toda a noite. Armados de arcos, lanças e pequenos punhais de ferro atados à cintura, penduraram nas costas os corpos dos compatriotas inertes e atravessaram a mata, rumo aos longínquos sinais de fumo e à povoação de cabanas construídas de palha, troncos de árvores e barro amassado. De madrugada, aos primeiros raios de sol, entregaram os corpos às famílias e foram direitos à casa do chefe da aldeia, que já estava a pé tendo ouvido a história dos cinco homens. O pai, o ancião da tribo, ouviu também e lembrou-lhes a premonição que anunciava para breve o fim dos dias de paz, que haveria muitas mortes daí para o futuro e estava agora a começar para eles a era dos tormentos e dos padecimentos atrozes. Nada mais disse e cansado, curvado sobre o cajado, entrou para a pequena cabana de palha seca, a ruminar os seus pensamentos e a cogitar novas profecias.
Daquele momento em diante começariam os rituais fúnebres tradicionais e depois dar-se-iam os funerais. No silêncio da alvorada, eclodiram os choros, as preces ao Criador e soaram os primeiros tambores, como uma trovoada que antecedesse o mau tempo - o pior dos vendavais, a mais terrífica das tempestades! Durante três dias e três noites os batuques não pararam. Em pouco tempo, os povos bakongos, souberam que algo de muito grave se estava a passar. Muitos quilómetros para lá da povoação, os autóctones abriram as bocas de espanto pelo que ouviam. Sabiam de histórias e lendas de homens estranhos vindos do mar, em navios poderosos, que lançavam fogo e destruição e capturavam os seus irmãos, mas só agora sentiam o perigo tão perto.
Para chegar àquele lugar do mundo, bastava aos navegadores descer para Sul, vindos dos portos de França, Espanha e Portugal, em direção às Canárias, com o vento de feição, empurrando as velas e navegar, ladeando a costa, até ao Golfo da Guiné, passando pelo Gabão, Congo, Angola e dando de caras com a Namíbia e o Botswana e depois alcançar o Cabo. Eram reinos desconhecidos, terras sem nome e escassamente habitadas, onde a malária, a febre tifoide e outras epidemias dizimavam povoados inteiros e os navegadores, que se aventuravam por aquelas paragens. Muitos meses se passavam até que encontrassem vivalma ou portos de abrigo, onde pudessem reabastecer-se de géneros. Os últimos postos avançados de comércio que encontraram, situavam-se nas Gran Canárias, onde havia um aquartelamento de europeus, traficantes de escravos e vendedores de víveres para os indígenas, com um pequeno embarcadouro, e aí puderam fazer algumas trocas. De momento estavam na imensa bacia entre o Gabão, os Reinos do Congo e o norte de Angola onde desfrutavam da bonomia do mar e do calor tropical. Por esses dias, a acalmia e o sossego reinavam naquelas águas. O tempo era bom, pairava no ar uma tepidez e uma quietude tão intensa, palpável, que quase se podia tocar ou ouvir, como musica, por vezes estranha, singular. Aos poucos, metodicamente, o sol quebrava e desfazia as partículas de orvalho acumulado durante a noite. A serenidade era absoluta. Mas anteriormente, durante semanas a fio, houve acontecimentos que deixaram os nativos estupefactos. Primeiro, foram duas canoas que de repente se viraram e por mais força que fizessem, por mais que homens e crianças ajudassem, nada as fazia voltar ao normal. Não tinham furos nem rombos, o casco estava completamente fechado, mas elas, contrariando as leis da física, mantinham-se com a garganta virada para baixo, como se quisessem engolir toda aquela água. Doutra vez, duas palmeiras sólidas, saudáveis e robustas caíram de repente prostrando-se no chão, como que a chamar a atenção daqueles amigos, que se protegiam sob a sua sombra, para algo que estava prestes a acontecer. As mulheres queixaram-se que as panelas se recusavam a receber alimentos, jogando tudo para fora, virando-se quando estavam ao lume; houve fogos e lumes que inusitadamente se apagaram. Os homens andavam assustados e intrigados. As mulheres já não sabiam como ferver os caldos preparar a mandioca. E os animais da aldeia eram inexplicavelmente encontrados a dormir, atacados de uma sonolência profunda, num estado cataléptico, as galinhas e os porcos encostavam-se em qualquer lugar e durante horas ficavam imóveis, em letargia total como nunca ninguém viu.
Mas os dias corriam tranquilos, o quotidiano e os hábitos de décadas mantinha-se imutáveis passando de pais para filhos. Os homens da terra que se dedicavam às lides da pesca, desciam até à praia, mal o dia clareava, empurravam as canoas de encontro às ondas, acompanhados dos filhos, vagueavam pela orla e ensinavam-lhes as artes do mar, lançando as redes e anzóis, com alegria e despreocupação, entre gritos de incentivo e gargalhadas de satisfação.
Mas há dois dias que as canoas haviam desaparecido e com elas todos os vestígios dos utensílios da pesca. Desapareceram as pequenas velas remendadas e comidas pelo tempo, que por vezes apetrechavam as compridas pirogas, os remos, as redes e qualquer sinal da sua presença. Quando as caravelas foram avistadas ao longe, os habitantes da praia, amedrontados, recolheram para o interior da floresta, para as suas casas e esconderijos, onde ficaram à espera que os estranhos partissem.
De dentro das naus, muitos pares de olhos espreitavam pelas escotilhas, tentando perceber onde estavam. Na caravela principal, a mais imponente, com o nome da rainha bordado a ouro na proa, dois canhões de ferro e bronze fundido, carregados de pólvora, viravam as bocas, nas amuradas, para terra e para o mar, ameaçando destruir qualquer inimigo que lhe ousasse enfrentar.
Descendo do convés por uma estreita escada em caracol, chegava-se ao porão, e um cheiro fétido atacava os sentidos. Vários homens suados e esfarrapados, na maioria apenas com um pano a cobrir as partes, conversavam descontraídos, guardados por um soldado de olheiras profundas, com o fuzil apontado, a desfalecer de cansaço e incomodado pelo calor, pelos mosquitos e pela humidade do ar. Dariam um bom lucro para D. Rodrigo, o corsário sem medo. Alguns bebiam de um sujo alguidar de latão, donde retiravam um líquido viscoso, em que boiavam restos de peixe e batatas, com a ajuda de uma concha de cabo comprido e enchiam uma pequena cabaça que levavam para o assento perto dos remos. Eram escravos, homens prontos para serem vendidos e mudados de dono, no primeiro porto, onde aparecesse algum traficante negreiro. Entre eles estavam dez robustos índios paraguaios capturados noutro porto, por outro bando de aventureiros, e traficados nas terras que os portugueses chamavam de Vera Cruz, no interior do Mato Grosso, na fronteira com o Paraguai, e aptos para serem negociados também.
Dormiram repousados e já a manha ia alta, estando os homens a aquecer o café, a comer broa e papas de milho, a arrumar as camas improvisadas e à espera de ordens de D. Rodrigo González, quando este saiu da tenda, os suspensórios caídos sobre as ancas, descalço, imundo, babando e exalando a vómito, vestindo ceroulas amarelas bastante usadas e gastas. Esbugalhado de tanta luz que lhe feria a vista, mas excitado pelo dia que o esperava depois de muito tempo de inatividade, ia finalmente ter ação. Ouviu-se a sua voz que gritava para os marinheiros:
- Los negros! Los negros! Donde están los negros? Vamo-nos a ellos! Avanzar, avanzar!
- Los negros! Los negros! Donde están los negros? Vamo-nos a ellos! Avanzar, avanzar!
Com a biqueira da bota, D. Rodrigo González pontapeou uma pequena fogueira que ardia à porta da sua tenda de campanha; empurrou a ordenança que fazia guarda à entrada e virou-se decidido para dentro, onde foi vestir o gibão da armada, a calça de cabedal castanho cozida à mão, os enfeites de metal e o capacete de pontas. Com a pistola de cano duplo dentro de um colete apertado, deixando ver o cabo de madrepérola e o percurtor curvo de ferro, retirou a espada da bainha, limpou à calça restos de sangue seco que ainda se agarravam à lamina, encaixou-a dentro da fina proteção de prata, com desenhos e dedicatórias da noiva prometida e voltou a prendê-la ao cinto. Tomou o café rapidamente, bebeu um gole de aguardente e, balançando o sabre junto à coxa, o Almirante saiu em direção aos homens que já se postavam de pé, prontos para a caminhada. Sabiam que o dia seria longo.
Frei Bartolomeu Bonifácio Benevides, como era o seu nome verdadeiro nos registos oficiais do governo civil de Salamanca, servo de Deus e da Ordem de Jesus, manteve-se no acampamento, sempre acompanhado por dois marinheiros armados, tendo algumas horas depois regressado ao convés da caravela para descansar e pôr as suas preces em dia. Almoçou tranquilamente um ensopado de carneiro, regou-o com o vinho que trouxera da abadia e entre salmos e escrituras passou o resto do dia concentrado nas leituras do livro sagrado.
Nesse dia os soldados palmilharam vinte quilómetros mata adentro, de espingardas aperradas, prontas para o disparo, mas não viram ninguém. Ao longo da caminhada, dezenas de vezes foram observados e seguidos por indígenas que caçavam e colhiam ervas para a alimentação. Mataram dois veados, que esfolaram e cozinharam no acampamento, no regresso e ao fim do dia comeram como há muito não faziam. Revezaram os guardas das caravelas, e estes também satisfizeram fartamente os estômagos ansiosos. Trouxeram mais vinho, aguardente e whisky das barricas da nau, beberam o resto da noite até caírem e cantaram satisfeitos abençoados por Frei Benevides, que, ao entardecer, voltou ao acampamento para confessar o comandante, aconselhá-lo, lembrar-lhe das promessas de ofertas em dinheiro à Ordem, da obediência ao Papa e à Virgem e para saber as novidades desse primeiro dia em terras desconhecidas.
Nos porões das naus, os escravos esquecidos ansiavam por água fresca e comida quente. Mas a noite chegou e apenas viram ao longe, pelas escotilhas, as fogueiras na praia e ouviram os cânticos ébrios dos marinheiros. O que sentiram foi o cheiro ténue, trazido pela brisa que soprou na direcção dos navios; o cheiro de carne suculenta assada nos espetos e o cheiro a álcool e pimenta, malagueta e rum, o que os fez adormecer e sonhar com um mundo diferente, mais justo, um mundo de um verdadeiro Deus, que talvez fosse melhor se de carne e osso se tratasse e se tivesse vida terrena, que andasse pelo mundo, entre fracos e miseráveis, não em espírito, ausente, e pudesse sentir como homem, na pele e no sangue, a dor profunda, lancinante, do punhal traiçoeiro por Ele cravado da escravidão.
De noite, na intimidade do quarto, ou na tenda de campanha, à luz tremeluzente de lamparinas, D. Rodrigo pensava no rumo que seguiam as naus à sua responsabilidade e chamava o seu oficial e adjunto de confiança, D. Mateus, da Real Escola do Mar de Córdova, para fazerem o balanço da aventura e traçaram novos planos para os dias que tinham pela frente. D. Rodrigo afastava da mesa os mapas, sextantes, quadrantes, bussolas, compassos, transferidores, lápis, aparos, tinteiros e cartas de navegação e ambos estudavam atentamente duas velhas cartas gordurosas e muito rabiscadas com hieróglifos chineses da dinastia Ming e do navegador e explorador Zheng He, que, dizia-se, em 1400 dera duas voltas ao mundo e deixara extenso material para consulta sobre luas e marés, constelações, nebulosas, lugares e portos de abrigo, enseadas, baías, arquipélagos, ilhas e presumíveis continentes; alguns relatos de mercadores e viajantes judeus, marroquinos, venezianos, genoveses, árabes e mongóis que percorreram a costa de África e traficaram escravos, ouro, prata, álcool e mercadorias, também eram passados em revista pelos dois oficiais.
(continua)
Uma História Comum (2)
(continuação)
Uma Lição para o Futuro
O golpe violento da espada cortou-lhe a garganta, junto à cabeça. O corte foi tão profundo e forte, feito de frente, num movimento brusco de cima para baixo, na diagonal, que apenas ficou uma ligeira extensão de pele a segurar as duas partes do corpo. O soldado voltou a levantar a espada e empurrou-a no sentido horizontal para debaixo da cavidade torácica, a meio do abdómen, trespassando o coração e os pulmões do segundo homem que lhe quis fazer frente. A seu lado, outro companheiro disparava o fuzil e a pistola contra dois guerreiros que vinham de encontro a eles, ameaçando-os com as compridas lanças. Do outro lado do círculo outros marinheiros disparavam e brandiam as espadas e as adagas contra alguns indígenas, e limpavam o terreno para que D. Rodrigo se assenhorasse do lugar. Bastaram mais alguns tiros e algumas mortes de velhos e mulheres para que a pouca população do aldeamento se ajoelhasse e rogasse que os deixassem viver. As mulheres agarravam-se às pernas dos soldados e rogavam misericórdia, as crianças encolhiam-se paralisadas de medo. Então o corsário, de pé, calmo mas atento, com a camisa branca de punhos de renda apertada nos pulsos, descansando a pesada bota sobre as raízes de uma frondosa árvore, e rodando um anel com o sinete de oficial da Armada de Sua Majestade, ao lado de outro, no dedo médio, com o brasão papal, com um brilho divertido no olhar e as faces rubras de prazer sangrento, suspirou entre duas baforadas sôfregas de fumo acre do charuto colombiano e ordenou que acabassem com aquilo, pegassem fogo ao que sobrava, matando tudo o que vivesse. Apenas os animais de criação seriam poupados para o repasto do exército. Não houve prisioneiros. Os que se esconderam entre os arbustos foram perseguidos até que os soldados se certificaram que ninguém continuava vivo. A aldeia ardeu durante vários dias.
Quando o massacre da aldeia terminou, Munõz dirigiu-se ao corpo do homem a quem quase decepara a cabeça e cortou o bocado do tecido que ainda o ligava ao corpo. Tudo estava envolto em sangue, que vertia em borbotões formando uma poça extensa. Trazia um feixe de ervas nas mãos e embrulhou a cabeça nas plantas para estancar o sangue. Levou o objeto consigo, junto de outros pertences seus, dentro de um saco de estopa e fez toda a longa caminhada de regresso ao acampamento, feliz por finalmente possuir aquilo que tanto sonhava. Durante vários meses, elaborou várias técnicas, descolando a carne, raspando e secando o crânio, que transportava para onde quer que fosse, deixando um cheiro nauseabundo atrás de si. Todos lhe tinham um medo atroz, era um homem de estatura elevada, acima do normal. Munõz andava sempre com várias armas à cintura e a tiracolo: duas espingardas presas a duas correias de couro cruzadas nas costas, vários sacos de pólvora, chumbo e pederneira pendurados no peito e pendendo dos cinturões; duas pistolas à cintura, um punhal comprido e uma adaga árabe curva, em meia-lua, presa numa coxa e a outra na bota de cano alto, faziam dele uma figura terrivelmente assustadora. Por detrás de uma barba espessa, escondiam-se duas orelhas donde pendiam grossas argolas de ouro puro. Tinha o cabelo preso atrás num rabo-de-cavalo comprido e uma face quase negra, donde sobressaiam dois olhos chamejantes e uma boca quase sempre cerrada, que se transformava num esgar assassino.
Os corpos ficaram abandonados aos animais selvagens. Quem passasse por ali nos dias seguintes poderia ver pedaços de corpos e membros rasgados pelos lobos e pelas hienas. Os cães e os pássaros entretinham-se a puxar pelas pernas e pelos braços dos cadáveres. A povoação tornou-se pasto dos abutres. Um cheiro a putrefação sentia-se ao longe, a quilómetros dali.
Chegados ao acampamento, Frei Bartolomeu Bonifácio Benevides deu-lhes as boas vindas, aspergiu-os com água benta, e benzeu todo o grupo, ajoelhados. Nessa noite, a festa foi de grande intensidade. Beberam mais do que habitualmente. A música e os gritos, os urros e os choros ouviam-se nos porões das caravelas. Os instintos mais primitivos libertaram-se naquela noite. Transformados em bestas, em lobos esfaimados sedentos de sangue, buscavam novas vítimas. Houve quem quisesse ir ao navio matar mais alguns, mas esses estavam protegidos pelo comandante, pois renderiam uma valiosa fortuna. O sangue humano e o seu odor característico provocavam neles um efeito de psicose coletiva, contagiante, um êxtase catártico, que agora era difícil travar. Alguns marinheiros diziam que aquela carne não era humana, de nada valia, pois era demasiado macia e facilmente era penetrada pelas espadas e pelos facalhões. O cheiro a carne humana queimada pairava no ar, o próprio chão exalava um vapor tenebroso, colara-se nas roupas dos marinheiros, nos cobertores, misturava-se com os restos dos animais que mataram e esfolaram no regresso. Toda a enseada exalava um odor a suor, a sacrifício e a morte. O comandante Rodrigo embebedara-se e adormecera vestido dentro da sua tenda. O frade Bartolomeu Bonifácio Benevides voltara para a nau, instalara-se confortavelmente, bebera vinho de melhor qualidade e comera dois suculentos bifes de carne fresca de veado e ainda algumas costeletas dos porcos trazidos da aldeia. Deitara-se com as vestes da Ordem, mas antes fizera a oração e agradecera a Deus o privilégio de servir o Papa e acompanhar D. Rodrigo González Navarro na mais bela das expedições.
Durante muitas horas festejou-se a conquista destas novas terras a que chamaram de Terra do Futuro. Mais tarde Sua Santidade haveria de lhe atribuir um nome católico e Sua Majestade a Rainha María Stewart registá-la-ia como a nova possessão do Reino.
Passaram-se décadas até que um frade português, jesuíta, de nome António Vieira chamasse a atenção para as práticas desumanas contra os nativos. Só a partir daí se suavizaram os métodos e se tornou branda a catequização, a evangelização e o tratamento a eles reservado.
As Terras do Futuro demoram a justificar este nome. Nas praias e nos areais extensos surgem cadeias de hotéis, resorts, casinos e condomínios de luxo. Os escravos das galés são hoje cavalheiros, usam fatos da Bond Street e transferem milhões entre offshores das Cayman Islands , as Bermudas e o Luxemburgo.
O tempo e as marés levaram consigo os nomes dos corsários e dos piratas sanguinários que usavam caveiras penduradas ao peito. As grandes caravelas jazem no fundo dos oceanos, carregadas de ouro vindas dos reinos de Malabar e do sultão de Samorim. A erosão e o vento afastaram a memória daqueles dias, transformoram tudo em cinzas e pó, mas rezam as lendas mais antigas, (e digo porque ouvi da boca das mulheres anciãs), que nas noites de pouca lua, quando a luz apenas se resume a uma débil chama prateada, acendem-se repentinos fogos, aqui e ali, e os espíritos dos dois nativos curiosos surgem do nada, vagueiam por aquelas areias, interrogando as conchinhas da praia e perguntando aos búzios porque terão morrido daquela forma. E há mesmo quem diga que os peixes vêm falar com eles à beira–mar.
Uma Lição para o FuturoO golpe violento da espada cortou-lhe a garganta, junto à cabeça. O corte foi tão profundo e forte, feito de frente, num movimento brusco de cima para baixo, na diagonal, que apenas ficou uma ligeira extensão de pele a segurar as duas partes do corpo. O soldado voltou a levantar a espada e empurrou-a no sentido horizontal para debaixo da cavidade torácica, a meio do abdómen, trespassando o coração e os pulmões do segundo homem que lhe quis fazer frente. A seu lado, outro companheiro disparava o fuzil e a pistola contra dois guerreiros que vinham de encontro a eles, ameaçando-os com as compridas lanças. Do outro lado do círculo outros marinheiros disparavam e brandiam as espadas e as adagas contra alguns indígenas, e limpavam o terreno para que D. Rodrigo se assenhorasse do lugar. Bastaram mais alguns tiros e algumas mortes de velhos e mulheres para que a pouca população do aldeamento se ajoelhasse e rogasse que os deixassem viver. As mulheres agarravam-se às pernas dos soldados e rogavam misericórdia, as crianças encolhiam-se paralisadas de medo. Então o corsário, de pé, calmo mas atento, com a camisa branca de punhos de renda apertada nos pulsos, descansando a pesada bota sobre as raízes de uma frondosa árvore, e rodando um anel com o sinete de oficial da Armada de Sua Majestade, ao lado de outro, no dedo médio, com o brasão papal, com um brilho divertido no olhar e as faces rubras de prazer sangrento, suspirou entre duas baforadas sôfregas de fumo acre do charuto colombiano e ordenou que acabassem com aquilo, pegassem fogo ao que sobrava, matando tudo o que vivesse. Apenas os animais de criação seriam poupados para o repasto do exército. Não houve prisioneiros. Os que se esconderam entre os arbustos foram perseguidos até que os soldados se certificaram que ninguém continuava vivo. A aldeia ardeu durante vários dias.
Francisco Munõz era um marinheiro que há muito acompanhava D. Rodrigo nas suas navegações pelo mundo. Percorreram milhares de milhas em busca da fortuna, procurando ouro, atacando e saqueando o espólio de navios piratas, árabes e muçulmanos, ou de quem andasse no mar em expedições de exploração científica, procurando novas rotas, portos e comércio com outros povos ou simplesmente traficando escravos. De navegadores ao serviço de Sua Majestade, facilmente se transformavam em corsários no alto mar, ou em força privada, em terra, protegendo algum castelo e os campos em volta e oferecendo os seus préstimos a fidalgos, à nobreza ou a algum cardeal poderoso, consoante aquele que melhor lhes pagasse. Foi este o motivo da sua estadia em Itália, no passado, comandando um pequeno exército de trinta homens, durante vários anos, protegendo um nobre cavaleiro, um duque de Génova, ao serviço de quem praticaram vários crimes, guerras privadas, emboscadas, assaltos e extorsões. Francisco Munõz era um sanguinário, assassino profissional e dizia que o seu maior sonho, era um dia possuir e embalsamar um crânio humano. Já tinha experimentado dedos e orelhas de homens que torturara e matara, mas o seu objetivo principal era obter um crânio e fazer dele um pequeno troféu que transportaria no cinto, ou num bornal, para que o temessem como um verdadeiro caçador de cabeças.
Quando o massacre da aldeia terminou, Munõz dirigiu-se ao corpo do homem a quem quase decepara a cabeça e cortou o bocado do tecido que ainda o ligava ao corpo. Tudo estava envolto em sangue, que vertia em borbotões formando uma poça extensa. Trazia um feixe de ervas nas mãos e embrulhou a cabeça nas plantas para estancar o sangue. Levou o objeto consigo, junto de outros pertences seus, dentro de um saco de estopa e fez toda a longa caminhada de regresso ao acampamento, feliz por finalmente possuir aquilo que tanto sonhava. Durante vários meses, elaborou várias técnicas, descolando a carne, raspando e secando o crânio, que transportava para onde quer que fosse, deixando um cheiro nauseabundo atrás de si. Todos lhe tinham um medo atroz, era um homem de estatura elevada, acima do normal. Munõz andava sempre com várias armas à cintura e a tiracolo: duas espingardas presas a duas correias de couro cruzadas nas costas, vários sacos de pólvora, chumbo e pederneira pendurados no peito e pendendo dos cinturões; duas pistolas à cintura, um punhal comprido e uma adaga árabe curva, em meia-lua, presa numa coxa e a outra na bota de cano alto, faziam dele uma figura terrivelmente assustadora. Por detrás de uma barba espessa, escondiam-se duas orelhas donde pendiam grossas argolas de ouro puro. Tinha o cabelo preso atrás num rabo-de-cavalo comprido e uma face quase negra, donde sobressaiam dois olhos chamejantes e uma boca quase sempre cerrada, que se transformava num esgar assassino.
Os corpos ficaram abandonados aos animais selvagens. Quem passasse por ali nos dias seguintes poderia ver pedaços de corpos e membros rasgados pelos lobos e pelas hienas. Os cães e os pássaros entretinham-se a puxar pelas pernas e pelos braços dos cadáveres. A povoação tornou-se pasto dos abutres. Um cheiro a putrefação sentia-se ao longe, a quilómetros dali.
Os novos senhores da selva abandonaram o lugar. Lavaram-se numa corrente de água que passava perto. Tingiram o rio caudaloso, de sangue. Descansaram algumas horas e regressaram ao acampamento perto da praia. Segundo o comandante, num raio de centenas de quilómetros, em breve se saberia do sucedido e o medo reinaria sobre aquela terra. Só assim se abreviaria e evitariam mais mortes e futuros incómodos. Era boa, a pacificação, e estava concluída. Deus haveria de recompensar o sacrifício por eles feito de aniquilar estes seres, que, por percalço divino, viviam entre a bestialidade e o inferno.
Chegados ao acampamento, Frei Bartolomeu Bonifácio Benevides deu-lhes as boas vindas, aspergiu-os com água benta, e benzeu todo o grupo, ajoelhados. Nessa noite, a festa foi de grande intensidade. Beberam mais do que habitualmente. A música e os gritos, os urros e os choros ouviam-se nos porões das caravelas. Os instintos mais primitivos libertaram-se naquela noite. Transformados em bestas, em lobos esfaimados sedentos de sangue, buscavam novas vítimas. Houve quem quisesse ir ao navio matar mais alguns, mas esses estavam protegidos pelo comandante, pois renderiam uma valiosa fortuna. O sangue humano e o seu odor característico provocavam neles um efeito de psicose coletiva, contagiante, um êxtase catártico, que agora era difícil travar. Alguns marinheiros diziam que aquela carne não era humana, de nada valia, pois era demasiado macia e facilmente era penetrada pelas espadas e pelos facalhões. O cheiro a carne humana queimada pairava no ar, o próprio chão exalava um vapor tenebroso, colara-se nas roupas dos marinheiros, nos cobertores, misturava-se com os restos dos animais que mataram e esfolaram no regresso. Toda a enseada exalava um odor a suor, a sacrifício e a morte. O comandante Rodrigo embebedara-se e adormecera vestido dentro da sua tenda. O frade Bartolomeu Bonifácio Benevides voltara para a nau, instalara-se confortavelmente, bebera vinho de melhor qualidade e comera dois suculentos bifes de carne fresca de veado e ainda algumas costeletas dos porcos trazidos da aldeia. Deitara-se com as vestes da Ordem, mas antes fizera a oração e agradecera a Deus o privilégio de servir o Papa e acompanhar D. Rodrigo González Navarro na mais bela das expedições. Durante muitas horas festejou-se a conquista destas novas terras a que chamaram de Terra do Futuro. Mais tarde Sua Santidade haveria de lhe atribuir um nome católico e Sua Majestade a Rainha María Stewart registá-la-ia como a nova possessão do Reino.
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A abordagem tinha sido devastadora. A estratégia surtiria os seus efeitos ao longo das próximas décadas. O medo instalara-se entre os nativos daquela região. Começaria também para eles a mais longa e dolorosa das humilhações. O Papa e as Ordens religiosas efetuariam um trabalho de mentalização sistemático e eficaz, em parceria com o poder militar e civil, amasiando-se com estes e usufruindo dessas vantagens. Construíram-se impérios e sistemas de governo, estradas, templos, pontes e caminhos-de-ferro, à base da mão-de-obra que estes homens ofereciam. Passaram-se décadas até que um frade português, jesuíta, de nome António Vieira chamasse a atenção para as práticas desumanas contra os nativos. Só a partir daí se suavizaram os métodos e se tornou branda a catequização, a evangelização e o tratamento a eles reservado.
As Terras do Futuro demoram a justificar este nome. Nas praias e nos areais extensos surgem cadeias de hotéis, resorts, casinos e condomínios de luxo. Os escravos das galés são hoje cavalheiros, usam fatos da Bond Street e transferem milhões entre offshores das Cayman Islands , as Bermudas e o Luxemburgo.
O tempo e as marés levaram consigo os nomes dos corsários e dos piratas sanguinários que usavam caveiras penduradas ao peito. As grandes caravelas jazem no fundo dos oceanos, carregadas de ouro vindas dos reinos de Malabar e do sultão de Samorim. A erosão e o vento afastaram a memória daqueles dias, transformoram tudo em cinzas e pó, mas rezam as lendas mais antigas, (e digo porque ouvi da boca das mulheres anciãs), que nas noites de pouca lua, quando a luz apenas se resume a uma débil chama prateada, acendem-se repentinos fogos, aqui e ali, e os espíritos dos dois nativos curiosos surgem do nada, vagueiam por aquelas areias, interrogando as conchinhas da praia e perguntando aos búzios porque terão morrido daquela forma. E há mesmo quem diga que os peixes vêm falar com eles à beira–mar.
Dezembro de 2011
José Luís Ferreira
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