sexta-feira, 15 de julho de 2011
A crise do endividamento nos USA
Vê-se pouco, na TV, em Washington, onde me encontro.
Só por causa das oscilações da Bolsa, se alude ao ataque das "rating agencies" a Italia. Tirando o escândalo do império Murdoch no Reino Unido, nada mais europeu existe. Nem sequer a explosão devastadora em Chipre, de que recebo notícias por colega cipriota.
Só por causa das oscilações da Bolsa, se alude ao ataque das "rating agencies" a Italia. Tirando o escândalo do império Murdoch no Reino Unido, nada mais europeu existe. Nem sequer a explosão devastadora em Chipre, de que recebo notícias por colega cipriota.
Em compensação, no Congresso, todos perguntam pela crise na Europa, todos falam da Grécia, todos temem o contágio, mesmo os menos informados Senadores e Representantes sabem que Portugal e Espanha estão no radar dos abutres, perguntam como é, como será, o que vai fazer a Europa.
Regulação, regulação, regulação - de ambos os lados se concorda que é indispensável e se admite que ainda não aconteceu.
O Dodd-Frank Act está a ser boicotado na aplicação, reconhecem. "Too much money, too much lobbying" dos bancos, financeiros e cia.
O controlo dos " tax havens" / a "Delaware question", que persistentemente trago à colação, todos concorrem ser indispensável, mas poucos tentam sequer explicar porque nada acontece.
O que está a dominar o discurso político e mediático é a disputa entre Administração e Congresso sobre o pedido aumento do tecto de endividamento, para que o Estado não incorra em "default" no inicio de Agosto. Tudo se comporá entretanto, todos asseveram, dando força à tese de que os Republicanos, reféns dos populistas e extremistas eleitos pelo "Tea Party", estão já a ensaiar em tom "nasty" a medição de forças para ver se no próximo ano inviabilizam a re-eleição de Obama, cada mais indigerivel para eles ( e uns Democratas a ajudar à missa, receosos de não serem re-eleitos para o ano...).
De forma incoerente, o líder da minoria Republicana no Senado, Mitch Mcconnell, sugeria hoje que o Presidente assumisse sozinho a decisão de elevar o endividamento, marimbando-se para a House - a mesma que há semanas o censurou por avançar com meios militares na Líbia, sem antes a ouvir...
Obama pede pela primeira vez para aumentar o limite do endividamento. Bush filho pediu sete e conseguiu sempre. Já aconteceu mais de 50 vezes desde os anos 60.
No fundo, nos States, como na Europa a questão é quem vai pagar a crise: os mais ricos ou os pobres e a classe média, a sofrer mais cortes no financiamento da assistência médica, como quer a direita, apostada em não deixar cobrar mais impostos aos ricos.
Que o sistema é escandalosamente injusto, admite-o o multimilionario Warren Buffet, accionista principal da famigerada Moody's, ao apontar que a sua secretária paga mais do dobro do que ele em impostos: ela é taxada a 33% pelo salário, ele apenas 14% pelas mais-valias milionárias do capital que investe...
A MSNBC explica como a resistência da direita ao aumento de impostos, instilada por media como a FOX News, tem tudo a ver os interesses do império Murdoch, que arrecadou lucros fabulosos nas ultimas décadas, desde que Rupert Murdoch se naturalizou americano, beneficiando de todo o tipo de isenções.
Nos EUA, como em Portugal e na Europa, voltamos sempre à velha questão: vamos usar o Estado para forçar os ricos a partilhar com os pobres, ou pelo contrário, vamos tornar os ricos cada vez mais ricos, à custa dos pobres?
Ana Gomes (do Blog "Causa Nossa")
Crise nos EUA. Proposta republicana para salvar o tecto da dívida
Ben Bernanke alerta para uma "calamidade financeira" se o tecto da dívida norte-americana não subir
O líder dos republicanos no Senado americano, Mitch Mc-Connell, ofereceu ontem a Barack Obama a "última opção" para acabar com o impasse nas negociações entre republicanos e democratas em relação à subida do tecto da dívida federal. Uma vez que é pouco provável um acordo sobre os cortes nas despesas até 2 de Agosto - data a partir da qual os EUA entram em incumprimento -, McConnell sugeriu que Obama passasse a ser autorizado a aumentar o limite dos empréstimos a que o governo federal pode recorrer sem aprovação prévia do Congresso.
A opção agradou à Casa Branca, já que os democratas acreditam que a medida permite evitar cortes orçamentais na segurança social, no Medicare e no Medicaid. A proposta. no entanto, não caiu bem entre muitos conservadores, que viam nos cortes um preço na negociação dos seus votos para aprovar o aumento do tecto da dívida.
A democrata Nanci Pelosi, líder da minoria na Câmara dos Representantes, defendeu a proposta e disse que "o que o líder McConnell pôs em cima da mesa reconhece que temos de subir o tecto da dívida". O líder da maioria na Câmara dos Representantes, Harry Reid, afirmou que ainda está a "estudar [a proposta] e a discutir com os senadores", mas que está agradado com o que lê, que considera uma proposta séria.
O senador republicano da Carolina do Sul Jim DeMint, numa entrevista dada ontem à CBS News, criticou o plano de contingência do líder conservador, por tornar mais fácil para o governo gastar ou pedir dinheiro emprestado. David Schweikert, congressista do Arizona, considera que, "se ambas as partes conseguirem aquilo que querem, é provavelmente uma má proposta". Mesmo alguns democratas estão cépticos em relação ao plano apresentado a Obama e criticam McConnell por ter atirado as responsabilidades para o presidente. Peter Welch, congressista democrata do Vermont, considera que "esta proposta não tem coluna vertebral".
Mas também há republicanos confiantes na proposta. Numa entrevista à Fox News, o republicano John Boehner, presidente da Câmara dos Representantes, afirma que "todos acreditam que há necessidade de um plano alternativo se não se conseguir chegar a um acordo", e acrescentou: "Sinceramente, acho que Mitch [McConnell] fez um bom trabalho ao sugerir esse plano". Boehner mostrou sinais da sua disposição de aceitar a proposta, até porque o líder republicano teme as repercussões no partido da falta de um acordo. Se não se aumentar o tecto da dívida e a administração americana entrar em incumprimento, os republicanos temem ser vistos como os maus da fita. As divisões entre os republicanos poderão, no entanto, complicar as negociações.
O presidente da Reserva Federal norte- -americana, Ben Bernanke, alertou ontem, num discurso no Capitólio, para os riscos de não se autorizar o governo federal a recorrer a financiamento externo. "Se o tecto da dívida não for elevado, ocorrerá uma calamidade financeira" e uma deterioração da economia. É a primeira vez que Bernanke se pronuncia de forma tão forte sobre o tema, a pouco menos de três semanas do prazo final estabelecido pelo Departamento do Tesouro. O presidente do banco central norte-americano defende que os Estados Unidos deixarem de pagar os juros da dívida "pode ser o suficiente para criar uma queda no rating da dívida e juros mais altos para os EUA, o que seria contraproducente".
Bernanke mostrou-se contra os cortes prematuros no orçamento da administração e considera que o Congresso e a Casa Branca deviam optar por reduzir as despesas numa perspectiva a longo prazo sobre o défice. "É preciso evitar contracções acentuadas a curto prazo, porque isso iria enfraquecer a recuperação económica do país", disse o presidente da Reserva Federal.
A administração de Barack Obama tem noção dos perigos que corre a economia americana caso as negociações se mantenham num impasse. Ontem, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, declarou que não existe alternativa a aumentar o limite da dívida federal. Não se trata de "resolver o problema, mas sim de lidar com as consequências de uma decisão catastrófica", disse. Carney é peremptório: sem um acordo, o governo federal vai ter de fazer "escolhas terríveis" quanto àquilo que deve pagar primeiro. "Não há alternativa. Ou se cumprem as obrigações ou não, e, se não, terão de ser feitas escolhas quanto a dívidas a pagar", referiu o porta-voz da Casa Branca.
Jornal I
Fusão de galáxias não acende buracos negros
Até agora acreditava-se que durante uma fusão o material perturbado se tornava o combustível do buraco negro
Uma equipa de cientistas descobriu que a maioria dos buracos negros no centro das galáxias nos últimos 11 mil milhões de anos não se tornaram activos devido a fusões de galáxias, como se pensava até agora. Esta conclusão consta de um estudo realizado por cientistas internacionais publicado na revista da especialidade "Astrophysical Journal". O objectivo era descobrir a origem "do material que activa o buraco negro adormecido que origina violentas explosões no centro da galáxia, tornando-se um núcleo activo de galáxia".
Até agora, os astrónomos achavam que a maioria destes núcleos activos se "acendia" quando se dava uma fusão de duas galáxias ou quando duas galáxias passavam muito perto uma da outra e o material perturbado se tornava o combustível do buraco negro central. O novo estudo indica que "a ideia pode estar errada". A equipa de cientistas descobriu que "os núcleos activos são encontrados maioritariamente em galáxias com massa muito elevada, que contém muita matéria escura". No estudo publicado ontem é referido que a "maior parte dos núcleos activos se encontra em galáxias com massas cerca de 20 vezes maiores que o previsto pela teoria da fusão". "Estes novos resultados abrem uma nova janela sobre como os buracos negros de grande massa iniciam as suas refeições", adiantou Viola Allevato, autora principal do artigo. A cientista referiu ainda que "os resultados indicam que os buracos negros são normalmente alimentados por processos gerados no interior da própria galáxia, como instabilidade do disco e formação estelar violenta, em oposição a colisões de galáxias".
Jornal I (14 Set)
FBI investiga Ruper Mordock
O FBI anunciou que irá iniciar uma investigação ao magnata Ruper Mordoch e ao seu império News Corp para saber se também houve escutas ilegais nos EUA a familiares de vítimas do 11 de Setembro.
A investigação surge depois de familiares de vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque terem manifestado essa suspeita.
Também vários senadores norte-americanos pressionaram as autoridades norte-americanas para que a investigação fosse levada a cabo.
“Estamos a examinar as acusações que estão na carta de Peter King” [senador republicano], afirmou uma fonte oficial do FBI citada por diversos jornais dos EUA.
Robert King afirma que jornalistas que trabalhavam para o jornal “News of the World” solicitaram à polícia de Nova Iorque acesso aos arquivos telefónicos das vítimas do 11 de Setembro.
Entretanto, Rupert Murdoch vai ao Parlamento britânico responder a perguntas dos deputados sobre as escutas ilegais que levaram ao encerramento do jornal News of the World, depois de ter sido intimado a comparecer.
Rupert Murdoch tinha sido convocado para comparecer perante o comité de Cultura, Media e Desporto do Parlamento britânico, na próxima terça-feira, mas inicialmente recusou. O presidente do comité, John Whittingdale, recorreu então à intimação, que abrange o magnata e o seu filho, James Murdoch, bem como Rebekah Brooks, a directora-executiva da News International.
O comité é responsável pelo inquérito parlamentar sobre as escutas ilegais nos jornais detidos por Murdoch que visaram diversos políticos, membros da família real e vítimas de crimes. Whittingdale sublinhou, em declarações à estação de televisão Sky News, que esta será a primeira vez que Rupert e James Murdoch responderão a questões sobre o escândalo das escutas ilegais. “Espero que levem este comité parlamentar a sério e que dêem respostas que não só nós mas muitas pessoas querem ouvir”, adiantou.
Rupert Murdoch tinha manifestado indisponibilidade para comparecer, e também James Murdoch procurara ganhar tempo. “Não posso ir na terça-feira, mas terei todo o gosto em responder ao comité nos dias 10 ou 11 de Agosto. Se a data não for conveniente, estou disponível para considerar outras alternativas”, explicou. Só Rebekah Brooks já tinha confirmado a sua presença na terça-feira, mas ressalvando que, por estar em curso uma investigação policial, vai abster-se de “discutir certas matérias em detalhe”.
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, já tinha defendido que Rupert Murdoch deveria apresentar-se perante o comité, e também o líder dos liberais-democratas que integram a coligação governamental, Nick Clegg, considerou que “se [Murdock] tem sentido de responsabilidade deve explicar-se”. A família Murdoch acabou por garantir, numa carta dirigida ao comité parlamentar, que irá estar presente e pretende colaborar.
Detenções prosseguem
Em Londres prosseguem as investigações sobre as escutas ilegais, que nesta quinta-feira levaram à detenção de Neil Wallis, antigo director executivo do News of the World. Ao início da manhã a Scotland Yard anunciou a detenção de “um homem de 60 anos” por envolvimento no caso das escutas ilegais. Mais tarde, vários órgãos de informação britânicos adiantaram tratar-se de Neil Wallis, que de 2003 a 2007 trabalhou directamente com Andy Coulson, então chefe de redacção do tablóide britânico.
Coulson tornou-se depois o director de comunicação do primeiro-ministro britânico, David Cameron, mas veio a demitir-se em Janeiro, na sequência deste escândalo, que no início deste mês atingiu novas proporções: a 4 de Julho, foi revelado que o telemóvel de uma adolescente que tinha sido assassinada, Milly Dowler, foi alvo de escutas. Algumas mensagens do telemóvel foram apagadas, o que levou os familiares a pensar que ela ainda estaria viva.
In jornal "Publico,"14Set.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Martin Scorcese: depois dos Stones, é George Harrison
George Harrison: Living in the Material World
Agora é oficial: tanto o documentário do Scorsese quanto o anthology pessoal do beatle mais magro foram anunciados para o início do próximo mês de outubro.
Rupert Murdoch disse hoje que vai prestar esclarecimentos ao Parlamento britânico. O magnata, dono do grupo News Corporation que detinha o jornal News of The World, revelou estar disponível para comparecer à audiência convocada pela comissão dos media da “Câmara dos Comuns”, para a próxima terça-feira.
O Parlamento pretende ver esclarecida, pela administração daquele grupo, a questão das escutas ilegais praticadas pelo News of The World, que fechou depois do escândalo ter vindo a público.
Além de Rupert Murdoch, os deputados britânicos convocaram também o seu filho, James Murdoch, presidente do grupo, e Rebekah Brooks, directora-geral da News International, filial britânica da News Corp. No entanto, apenas Brooks comparecerá na audiência da próxima terça-feira.
O escândalo com o News of The World fez com que a News Coporation retirasse ontem a oferta de compra da maioria das acções da rede televisiva British Sky Broadcasting (BSkyB). A administração recuou na proposta de aquisição das estações horas antes da votação no Parlamento de moção contra a operação.
O Puro Pássaro O Portugal Futuro
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Portugal: "rating or not rating?", ou a crise das dívidas soberanas
| O Banco Português de Negócios, um dos intervenientes nesta crise, pelos enormes buracos financeiros que criou |
Existe alguma confusão acerca do que se está a passar na zona euro. Não existe nenhuma crise do euro. O que se está a passar são “crises das dívidas soberanas”, se quisermos ser mais exactos, o que é uma coisa bem diferente. A moeda única continua forte, até demais, está entre as moedas mais fortes do mundo, com uma cotação acima do dólar, prejudicando de certa forma certas economias em dificuldade, que querendo fazer algum “dumping”, isto é, baixar o valor facial da moeda para facilitar as transacções e exportações (pois venderiam mais barato), como o tem feito a China, não o pode fazer, por estar presa às regras apertadas do sistema financeiro da União Europeia.
A UE é composta por vinte e sete países. É o maior projecto de bem-estar social comum-Welfare State- alguma vez experimentado pelo homem. Nos últimos cinquenta anos, após a II Grande Guerra, foi capaz de produzir os mais altos índices de conforto, inovação, riqueza, reformas e futuro garantido para milhões de cidadãos europeus. Alguns, poucos, como a Suécia, UK, Dinamarca, não aderiram à moeda única, e dentro daqueles que aderiram, só três, a saber: a Grécia, Portugal, a Irlanda e a Espanha (esta, sim e não), estão verdadeiramente em dificuldades. Portugal e a Grécia, viram na integração a galinha dos ovos de ouro que lhes iria catapultar para a esfera dos países mais ricos da Europa. Na Grécia, o patinho feio deste triunvirato, isto teve o efeito perverso de forma gigantesca e catastrófica, pois estes cavalheiros entretiveram-se a enganar tudo quanto era autoridade financeira mundial, apresentando números e orçamentos conspurcados e vivendo daquilo que não tinham. A Espanha é uma economia poderosa, com outra dinâmica, que mais facilmente contraria a tendência de afundamento e tem alguma protecção da Alemanha e do Banco Central Europeu, pois sabem que se a Espanha afunda será a catástrofe anunciada. A Irlanda tem uma crise bancária, que vem tentando resolver como pode.
O caso português é diferente. Se nos cingirmos à história dos últimos 30 anos, Portugal teve uma oportunidade de ouro para dar o grande salto em frente, quando após a integração na CEE, na década de oitenta (segunda metade) recebeu milhões e milhões de euros de fundos estruturais, para ajuda a empreendimentos, pontes, auto estradas, projectos de arquitectura e engenharia com financiamento da CEE, e realizações e formação empresariais. Concomitantemente as privatizações também renderam ao Estado milhões de euros. Isto criou nos portugueses uma sensação de riqueza (e realmente houve). Mas em vez de apostar forte na educação e na reconversão da economia, envolveu-se em débeis reformas e mais reformas da educação, todas frustradas e más, abandonou a agricultura e as pescas, por imposição da CEE e do seu sistema de quotas, e não tornou a indústria verdadeiramente competitiva, fazendo as transformações e fornecendo atractivos e facilidades aos grandes investimentos que se impunham e continuando a resguardar-se debaixo do guarda-chuva do Estado proteccionista. Ao invés, construiu uma rede de auto estradas iníquas e sem aproveitamento, fracas e de segunda categoria, dando de bandeja lucros fabulosos às construtoras. Quando acontece a queda do muro de Berlim, a implosão da URSS e a abertura da Ásia com os seus
mercados baratos e a sua mão-de-obra escrava, as grandes empresas multinacionais mudam-se para os países do Leste e para a Ásia, ficando Portugal com o menino nos braços, quero dizer sem agricultura, sem pescas e sem indústria. Somando a isto a ameaça dos países emergentes como a Brasil e a Índia, que lutam pelos mercados e apresentam bons índices de desenvolvimento, Portugal fica com um grave problema entre mãos.
Nos últimos anos, quando se poderia travar a queda em espiral, os dirigentes portugueses ficam cegos com a ânsia de “obras do regime” e disparam com empreendimentos megalómanos, arrastando sempre consigo grandes prejuízos para o Estado. É o regabofe das instituições e fundações, dos aconselhamentos e “advisers”, das “consulting firms” a preços faraónicos, das empresas mistas- as sociedades entre o Estado e entidades particulares que só trazem prejuízo para o erário público- são as obras públicas que sempre apresentam um enorme buraco e onde frequentemente acontecem derrapagens para além do orçamento inicial, etc, etc, etc. Portugal vai assim acumulando um défice macrocéfalo das contas públicas, ao mesmo tempo que se vai endividando nas instituições financeiras internacionais, pagando os altíssimos juros correspondentes. Some-se a isto o envelhecimento da população portuguesa e o aumento dos encargos do estado social, as gigantescas despesas com a saúde e o fraco Produto Interno Bruto (PIB) e temos o cocktail explosivo pronto a deflagrar.
Chegados que estamos aos anos da graça de 2010/2011, começam a soar os alarmes por todos os cantos e já não há dinheiro para mais nada.
Entretanto surge no terreno a grande pecha, o actor que realmente vai ditar o jogo e dar as cartas, e que são as grandes agências de notação financeira internacional. São elas de seu nome completo: Moody´s, Standard & Poor’s, e Fitch. Três grandes e poderosíssimas agências de “rating” que vêm tirando o sono aos portugueses.
E então que fazem estes senhores? Dão notas e avaliam o grau de risco que corre um credor ou investidor quando pensa comprar títulos da dívida pública aos países que precisam de se financiar. Montam um gráfico que vai do Triplo A ao lixo, e vão descendo implacavelmente, aplicando “downgrades” sucessivos conforme acham que é merecido. Resulta daqui que, à medida que vai descendo a avaliação que estes senhores fazem às economias em crise, mais vão
apertando o garrote, criando o ambiente necessário para que seja cortado o financiamento a esses países e obrigando-os à bancarrota, a entrar em “dafault”, que significa incumprimento ou incapacidade de pagar as dívidas contraídas, que é o caso da Grécia e do momento em que esta se encontra, e desconfia-se que é o caminho que Portugal vai seguir. Resta à Grécia pedir sucessivos financiamentos ao FMI, perguntando-se como irá pagar as astronómicas quantias de taxas de juro. Já vai no segundo empréstimo de 100 milhões de euros e não sabe quando irá parar.
Bom, mas qual é a solução para esta enorme e perigosa embrulhada? As economias funcionam como um sistema de vasos comunicantes e o efeito colateral por arrastamento e contágio poderá afetar outras economias da zona euro.
Diz o multimilionário americano George Soros, por excelêncio maior investidor em produtos da bolsa: “Trata-se apenas de uma luta entre sistemas ricos e pobres e os ricos estão a ganhar.” Apenas isto, nú e crú.
A Alemanha e a França, o eixo franco-alemão, o Banco Centra Europeu e a Comissão Europeia têm as rédeas da carruagem e podem reverter a direcção do comboio e evitar o descarrilamento. O BCE pode intervir conforme alguns economistas advogam, e instituir um sistema de “eurobonds”, que sãom obrigações de renda fixa, mas até agora tem a oposição da Alemanha que se vê farta e desesperada para deixar de apoiar as economias periféricas, com sucessivos “bailouts” e injecções de capital.
Outra solução de que também se fala consiste em a EU criar as suas próprias agências de avaliação, como inteligentemente já fez a China, para não ficar dependente dos parâmetros americanos.
Portugal entra em crise de nervos, pois há dois dias que a agência Moody´s baixa o rating português e dos bancos nacionais para lixo.
Em Portugal, não se compreende como a Comissão Europeia continua apática e em letargia total, perante o assalto e a verdadeira pirataria destas agências americanas.
Haverá outras soluções mas todas passam pela intervenção do BCE e da Alemanha, na pessoa da Chanceler Angela Merkel.
Vamos esperar para ver.
José Luis Ferreira
Queluz, 7 de Julho de 2011
Violador, ou nem por isso?
O caso Dominique Srauss-Kahn recorda-me um outro, passado há alguns anos e que ainda muita gente se deve lembrar. Refiro-me ao julgamento do facínora O. J. Simpson, ex-astro da NFL, a liga americana de futebol profissional, assassino confesso da esposa Nicole Brown Simpson e do amante desta, Ronald Goldman.
E como posso estabelecer alguma ligação entre os dois actos?
Há dias vi e ouvi a entrevista de Oprah Winfrey a Mark Furham, o polícia que primeiro chegou ao local do crime e contactou com as provas do assassínio. Em traços largos e salvo alguns lapsos de memória foi isto que retive do trabalho de O.W.. Fora os erros da colheita das provas cometidos pelos polícias e as longas e tumultuosas peripécias do julgamento, fiquemos pelo essencial:
M.F.: - fui chamado pelo departamento da LAPD, pelo telefone, atendi e comunicaram-me que ele estava em fuga. Quando chegamos ao local do crime, era tão evidente, estava tudo tão claro e não havia buraco nenhum que a história corria à nossa frente.
O.W.: - sabe, eu não tenho dúvidas nenhumas que O.J. matou os dois, mas olhe, quando começou o julgamento, eu estava em casa, junto ao meu companheiro, Stedman, e o que ele me disse foi: - ele vai safar-se, não vão conseguir prendê-lo.
M.F.: - a partir do momento em que este caso caiu na imprensa e foi mediatizado como foi, acabou, só interessava o que passava para a imprensa e a forma como esta o tratava e chegava às pessoas.
O.W. : houve uma altura nos USA, em que as opiniões estavam tão radicalizadas, que num encontro a dois, se ambos não tivessem a mesma opinião, melhor seria terminar aí o encontro.
Mas onde pretendo eu chegar?
O caso D.S.K. também me pareceu tão lógico, tão facilmente apreensível, que não tive dúvidas sobre a culpabilidade de D.S.K.. Strauss-Kahn tinha fama de conquistador e predador sexual, já tivera uma queixa de uma escritora e jornalista francesa que lhe chamou de “macaco com cio,” mas que fora entretanto retirada. Também foram detectados vestígios de esperma do homem, nas roupas da “maid” do Hotel Sofitel em NYC. No início do julgamento formou-se uma manifestação de “maids” dos hotéis, à porta do tribunal, à entrada de D.S.K.
Mas entretanto, nos últimos dias, há um volte face e a acusadora passa de vítima a criminosa provocadora, prostituta, passadora de droga, amante de um profissional do mesmo ramo e com uma conta bancária choruda, com depósitos feitos recentemente pelo suposto marido. O procurador de Manhattan, Cyrus Vance não consegue sustentar a credibilidade da mulher, o processo parece abanar, e correm rumores de que a queixa contra DSK vai acabar por ser retirada.
Ao mesmo tempo, a jornalista francesa Tristane Banon, que passou estes anos todos (seis) a tentar esquecer o assunto, volta acompanhada da mãe, que carrega nas tintas e chama não sei quê ao violador, quer reabrir o caso, pois segundo a lei francesa só prescreve ao fim de dez anos.
Parece-me que, há muito jogo de bastidores neste, como no caso O.J. Simpson. No caso O.J. pesou a opinião pública, concretamente a comunidade negra, que atemorizou o júri e que fez de tudo aquilo um braço de ferro, onde poderiam lavar a face e mostrar as garras ao poder, representado pela comunidade branca dos EUA.
Forças muito poderosas se agitam. DSK é um homem com um carisma extraordinário e o próprio Jack Lang vem defender a honra e o direito supremo de DSK se candidatar à presidência de França. A imprensa e a opinião pública francesa tomam o caso como uma injustiça praticada pelos brutamontes americanos, e querem salvar o orgulho francês, vilmente atacado , vilipendiado e insultado.
Cyrus Vance, o procurador de Nova York, filho do ex-secretário de estado da presidência de Jimmy Carter resiste, mas está capturado pela esmagadora pressão internacional e já se percebeu qual vai ser o desfecho de tudo isto.
José Luis Ferreira
Queluz, 7 Julho de 2010
E como posso estabelecer alguma ligação entre os dois actos?
Há dias vi e ouvi a entrevista de Oprah Winfrey a Mark Furham, o polícia que primeiro chegou ao local do crime e contactou com as provas do assassínio. Em traços largos e salvo alguns lapsos de memória foi isto que retive do trabalho de O.W.. Fora os erros da colheita das provas cometidos pelos polícias e as longas e tumultuosas peripécias do julgamento, fiquemos pelo essencial:
M.F.: - fui chamado pelo departamento da LAPD, pelo telefone, atendi e comunicaram-me que ele estava em fuga. Quando chegamos ao local do crime, era tão evidente, estava tudo tão claro e não havia buraco nenhum que a história corria à nossa frente.
O.W.: - sabe, eu não tenho dúvidas nenhumas que O.J. matou os dois, mas olhe, quando começou o julgamento, eu estava em casa, junto ao meu companheiro, Stedman, e o que ele me disse foi: - ele vai safar-se, não vão conseguir prendê-lo.
M.F.: - a partir do momento em que este caso caiu na imprensa e foi mediatizado como foi, acabou, só interessava o que passava para a imprensa e a forma como esta o tratava e chegava às pessoas.
O.W. : houve uma altura nos USA, em que as opiniões estavam tão radicalizadas, que num encontro a dois, se ambos não tivessem a mesma opinião, melhor seria terminar aí o encontro.
Mas onde pretendo eu chegar?
O caso D.S.K. também me pareceu tão lógico, tão facilmente apreensível, que não tive dúvidas sobre a culpabilidade de D.S.K.. Strauss-Kahn tinha fama de conquistador e predador sexual, já tivera uma queixa de uma escritora e jornalista francesa que lhe chamou de “macaco com cio,” mas que fora entretanto retirada. Também foram detectados vestígios de esperma do homem, nas roupas da “maid” do Hotel Sofitel em NYC. No início do julgamento formou-se uma manifestação de “maids” dos hotéis, à porta do tribunal, à entrada de D.S.K.
Mas entretanto, nos últimos dias, há um volte face e a acusadora passa de vítima a criminosa provocadora, prostituta, passadora de droga, amante de um profissional do mesmo ramo e com uma conta bancária choruda, com depósitos feitos recentemente pelo suposto marido. O procurador de Manhattan, Cyrus Vance não consegue sustentar a credibilidade da mulher, o processo parece abanar, e correm rumores de que a queixa contra DSK vai acabar por ser retirada.
Ao mesmo tempo, a jornalista francesa Tristane Banon, que passou estes anos todos (seis) a tentar esquecer o assunto, volta acompanhada da mãe, que carrega nas tintas e chama não sei quê ao violador, quer reabrir o caso, pois segundo a lei francesa só prescreve ao fim de dez anos.
Parece-me que, há muito jogo de bastidores neste, como no caso O.J. Simpson. No caso O.J. pesou a opinião pública, concretamente a comunidade negra, que atemorizou o júri e que fez de tudo aquilo um braço de ferro, onde poderiam lavar a face e mostrar as garras ao poder, representado pela comunidade branca dos EUA.
Forças muito poderosas se agitam. DSK é um homem com um carisma extraordinário e o próprio Jack Lang vem defender a honra e o direito supremo de DSK se candidatar à presidência de França. A imprensa e a opinião pública francesa tomam o caso como uma injustiça praticada pelos brutamontes americanos, e querem salvar o orgulho francês, vilmente atacado , vilipendiado e insultado.
Cyrus Vance, o procurador de Nova York, filho do ex-secretário de estado da presidência de Jimmy Carter resiste, mas está capturado pela esmagadora pressão internacional e já se percebeu qual vai ser o desfecho de tudo isto.
José Luis Ferreira
Queluz, 7 Julho de 2010
Maria José Nogueira Pinto (1952/2011)
Gostei da atitude dos adversários políticos da Dra. Maria José Nogueira Pinto ((1952/2011), no Parlamento, que de voz embargada e lágrimas nos olhos fazem o elogio público da doutora, que de forma combativa e frontal, sempre se empenhou em defender os seus ideais políticos e religiosos. Também eu aprendi bastante com as suas intervenções na TV, segui-a às vezes do outro lado da barricada, mas sempre inspirado e rendido á sua beleza de menina traquina. Paz à sua alma.
Dizer apenas mais qualquer coisa acerca da Dra Mra. José:
-Para aqueles que não a conheceraram e acham que a política é apenas para os oportunistas e feita por um bando de chacais, saibam que com a nossa dra. as coisas não eram bem assim. A sua dignidade era tanta, que ela, até aos últimos dias de vida compareceu no seu lugar de bancada no parlamento, já cadavérica, arrastando a máscara da doença e da morte, demonstrando a todos como se é uma grande mulher. E também me lembro de a ver no programa do Mário Crespo, a debater com o Francisco Assis, seu adversário político, observada e respeitada pelo seu débil estado físico, ali no seu posto de combate, por detrás de duas pupilas emsombradas pela morte. Na verdade sinto o seu passamento como se de um familiar se tratasse. Paz eterna para a minha Doutora.J.L.F.
"O Prazer do Texto", por Roland Barthes
Estar com quem se ama e pensar em outra coisa: é assim que tenho os meus melhores pensamentos, que invento melhor o que e necessário ao meu trabalho. O mesmo sucede com o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente; se, lendo- o, sou arrastado a levantar muitas vezes a cabeça, a ouvir outra coisa. Não sou necessariamente cativado pelo texto de prazer; pode ser um ato ligeiro, complexo, tênue, quase aturdido: movimento brusco da cabeça, como o de um pássaro que não ouve nada daquilo que nós escutamos, que escuta aquilo que nós não ouvimos.
Roland Barthes ("O prazer do texto")
Roland Barthes ("O prazer do texto")
Os Guardiões do Templo
Vejo e oiço "A quadratura do círculo". É um bom programa sobre a política nacional. Pacheco Pereira, céptico, critica tudo o que mexe; António Costa, polido e consensual, elogia, critica quando pode, dá força ao novo governo e espera para ver. É um gentleman. Os outros também o são. Lobo Xavier, agora de dentro do monstro, defende como um leão a sua coligação. É interessante ver a mudança de papéis e de atitudes: quem atacava agora defende e quem defendia agora ataca com armamento pesado.
Já se percebeu que não vamos para a frente se não se alterar a Constituição da República, a nossa Magna Carta, em certos aspectos fundamentais que entravam e emperram o funcionamento do Estado. Já se viu que vai ter que haver mexidas a sério. Portugal tem que sair do espartilho de uma constituição de matriz socialista e revolucionária para entrar de corpo inteiro na economia de mercado aberta e liberal. Mas tem que primeiro gerar riqueza. Lá mais para a frente, quando o mercado criar riqueza novamente, a meu ver, deveriamos então voltar para um novo programa do tipo sueco ou nórdico em que o Estado garante todas as falhas e percalços que possam acontecer ao cidadão.
Em Portugal, sempre que se fala em mexer na Constituição, logo saltam dois ou três senhores, sábios doutores e jubilados professores, em defesa do "status quo. Fazem-no com uma atitude passadista, anacrónica e pouco sadia, como se fossem eles os guardiões e donos da Constituição. Sabemos que foram eles que, na sua imensa sabedoria e competência a elaboraram. Mas parece-me que apenas vamos adiando o inevitável, atrasando o que já é impossivel travar. São necessárias medidas de fundo que exigem um amplo consenso nacional, coragem e atitudes com sentido prático e verdadeiramente visionárias.
J.L.F.
Já se percebeu que não vamos para a frente se não se alterar a Constituição da República, a nossa Magna Carta, em certos aspectos fundamentais que entravam e emperram o funcionamento do Estado. Já se viu que vai ter que haver mexidas a sério. Portugal tem que sair do espartilho de uma constituição de matriz socialista e revolucionária para entrar de corpo inteiro na economia de mercado aberta e liberal. Mas tem que primeiro gerar riqueza. Lá mais para a frente, quando o mercado criar riqueza novamente, a meu ver, deveriamos então voltar para um novo programa do tipo sueco ou nórdico em que o Estado garante todas as falhas e percalços que possam acontecer ao cidadão.
Em Portugal, sempre que se fala em mexer na Constituição, logo saltam dois ou três senhores, sábios doutores e jubilados professores, em defesa do "status quo. Fazem-no com uma atitude passadista, anacrónica e pouco sadia, como se fossem eles os guardiões e donos da Constituição. Sabemos que foram eles que, na sua imensa sabedoria e competência a elaboraram. Mas parece-me que apenas vamos adiando o inevitável, atrasando o que já é impossivel travar. São necessárias medidas de fundo que exigem um amplo consenso nacional, coragem e atitudes com sentido prático e verdadeiramente visionárias.
J.L.F.
Welcome to the Jungle!
O Peixe de Águas Profundas
O contraste da nova presidente com Jaime Gama, o presidente cessante, não podia ser maior. Diplomata de carreira e político profissional, de uma competência inultrapassável e de honestidade à prova de bala, Gama impunha o seu estilo pausado, polido, sério e sorumbático, com uma dicção particular, marcando e sublinhando com cadência cada sílaba e cada palavra de um discurso teórico, pensado, altamente intelectualizado e refinado. Como alguém um dia lhe chamou “o peixe de águas profundas”.
J.L.F.
Um Homem de Honra
Fernando Nobre é um homem de honra. Não tenho dúvidas nenhumas que saberia desempenhar o cargo de Presidente da Assembleia da República com sabedoria, bom senso e equidade. Erros cometem todos, até o mais tarimbado dos deputados. Robespierre também errava como os outros.
Uma simples frase sentenciou-o, aniquilou-o e matou-o politicamente. Mas o que disse F. Nobre? Apenas isto: “-se for para o Parlamento, só para o cargo de Presidente e nunca para deputado.”
O fantasma da Maçonaria passeou hoje pelos claustros e pelas arcadas do Parlamento. Soubemos esta manhã que F. Nobre é maçónico, como o são a grande parte dos nossos dirigentes. Ou dessa sociedade exclusiva e reservada ou então da Opus Dei.
O que hoje se passou nas votações dos grupos parlamentares e nos Passos Perdidos, se por um lado demonstra a maturidade e o civismo da democracia portuguesa, (na Mongólia, na Colômbia ou no Cazaquistão voariam cadeiras, e haveria cabeças partidas), por outro põe a nu o desacerto e fragilidade da coligação. E a ingenuidade de Passos Coelho. Portas fritou-o em lume brando e mastigou-o com requintes de malvadez.
Faltou afinação à máquina política. Faltou sentido político e estratégia conjunta.
Foi pungente assistir ao espectáculo da humilhação pública de um homem de honra. Fica a lição para o futuro. Um médico de craveira internacional, presidente da AMI, com um extenso currículo de ajuda humanitária por zonas de conflito armado agudo no mundo, deveria ter maior sentido de permanência na sua profissão. Ainda teria um longo caminho a percorrer, estou certo. Trabalho não lhe faltaria. Mas o chamamento do serviço público poderá ter pesado e ser mais forte.
Não serei eu a julgá-lo nem lhe atirarei a primeira pedra.
J.L.F.
Uma simples frase sentenciou-o, aniquilou-o e matou-o politicamente. Mas o que disse F. Nobre? Apenas isto: “-se for para o Parlamento, só para o cargo de Presidente e nunca para deputado.”
O fantasma da Maçonaria passeou hoje pelos claustros e pelas arcadas do Parlamento. Soubemos esta manhã que F. Nobre é maçónico, como o são a grande parte dos nossos dirigentes. Ou dessa sociedade exclusiva e reservada ou então da Opus Dei.
O que hoje se passou nas votações dos grupos parlamentares e nos Passos Perdidos, se por um lado demonstra a maturidade e o civismo da democracia portuguesa, (na Mongólia, na Colômbia ou no Cazaquistão voariam cadeiras, e haveria cabeças partidas), por outro põe a nu o desacerto e fragilidade da coligação. E a ingenuidade de Passos Coelho. Portas fritou-o em lume brando e mastigou-o com requintes de malvadez.
Faltou afinação à máquina política. Faltou sentido político e estratégia conjunta.
Foi pungente assistir ao espectáculo da humilhação pública de um homem de honra. Fica a lição para o futuro. Um médico de craveira internacional, presidente da AMI, com um extenso currículo de ajuda humanitária por zonas de conflito armado agudo no mundo, deveria ter maior sentido de permanência na sua profissão. Ainda teria um longo caminho a percorrer, estou certo. Trabalho não lhe faltaria. Mas o chamamento do serviço público poderá ter pesado e ser mais forte.
Não serei eu a julgá-lo nem lhe atirarei a primeira pedra.
J.L.F.
O arco da governação
O Partido Comunista Português não é um partido de governo. Não pertence ao arco da governação. Mas é uma força de enorme importãncia no nosso espectro político, pelas suas reivindicações muito justas, atendento às necessidades básicas dentro da sociedade portuguesa. Mantém o equilibrio de poderes, sendo travão e oferecendo resistência aos desvarios e egoismos dos grandes interesses e monopólios, e não tenho dúvidas nenhumas que quase sempre está ao lado das franjas mais desfavorecidas da sociedade.
Dou um pequeno exemplo: já viram as diferenças de meios e recursos que são postos à disposição dos outros partidos políticos nas conferências, confraterizações, almoços, jantares, congressos? É a loiça de Vista Alegre ou de Limoges, são os copos de cristal da Bohémia, é o catering, são as meninas para recepcionar os convidados, são as flores, é um nunca mais acabar de sofiscação e despesismo. E são ainda as grandes produções e meios publicitários, o marketing, a construção da imagem dos candidatos, eu sei lá!
Será que há mesmo dinheiro para isso tudo? Será que isso corresponde à riquesa real do país? Já vimos que não.
Por outro lado o PCP, quando organiza almoços, festas, quermesses e encontros políticos, é sempre tudo dentro da maior frugalidade, sendo os próprios militantes a ajudar na feitura dos petiscos, em tachos e panelas de alumínio vulgar, são eles próprios que levantam e arrumam as mesas nos congressos com trabalho voluntário, os cartazes e placards são pintados á mão e é todo um mar de exemplos de contenção e uso dos recursos do dia a dia.
É caso para pensar quem está do lado da razão. É tempo de se fazer alguma justiça.
Queluz, 21 de Maio de 2011
J.L.F.
Dou um pequeno exemplo: já viram as diferenças de meios e recursos que são postos à disposição dos outros partidos políticos nas conferências, confraterizações, almoços, jantares, congressos? É a loiça de Vista Alegre ou de Limoges, são os copos de cristal da Bohémia, é o catering, são as meninas para recepcionar os convidados, são as flores, é um nunca mais acabar de sofiscação e despesismo. E são ainda as grandes produções e meios publicitários, o marketing, a construção da imagem dos candidatos, eu sei lá!
Será que há mesmo dinheiro para isso tudo? Será que isso corresponde à riquesa real do país? Já vimos que não.
Por outro lado o PCP, quando organiza almoços, festas, quermesses e encontros políticos, é sempre tudo dentro da maior frugalidade, sendo os próprios militantes a ajudar na feitura dos petiscos, em tachos e panelas de alumínio vulgar, são eles próprios que levantam e arrumam as mesas nos congressos com trabalho voluntário, os cartazes e placards são pintados á mão e é todo um mar de exemplos de contenção e uso dos recursos do dia a dia.
É caso para pensar quem está do lado da razão. É tempo de se fazer alguma justiça.
Queluz, 21 de Maio de 2011
J.L.F.
O pós-pessimismo (do Blog "A Lei Seca")
Assim como os sociólogos falam de «pós-materialismo», também existe um
«pós-pessimismo». O pós-materialismo supõe uma sociedade que genericamente tem
assegurada a sua subsistência e que por isso se dedica a questões não-materiais.
O pós-pessimismo supõe um estado de coisas em que a hipótese pessimista se
confirmou, e por isso o pessimismo já não é um espectro mas uma condição. E isso
liberta a cabeça para pensar noutros assuntos. Assim como os sociólogos falam de «pós-materialismo», também existe um «pós-pessimismo». O pós-materialismo supõe uma sociedade que genericamente tem assegurada a sua subsistência e que por isso se dedica a questões não-materiais. O pós-pessimismo supõe um estado de coisas em que a hipótese pessimista se confirmou, e por isso o pessimismo já não é um espectro mas uma condição. E isso liberta a cabeça para pensar noutros assuntos.
«pós-pessimismo». O pós-materialismo supõe uma sociedade que genericamente tem
assegurada a sua subsistência e que por isso se dedica a questões não-materiais.
O pós-pessimismo supõe um estado de coisas em que a hipótese pessimista se
confirmou, e por isso o pessimismo já não é um espectro mas uma condição. E isso
liberta a cabeça para pensar noutros assuntos. Assim como os sociólogos falam de «pós-materialismo», também existe um «pós-pessimismo». O pós-materialismo supõe uma sociedade que genericamente tem assegurada a sua subsistência e que por isso se dedica a questões não-materiais. O pós-pessimismo supõe um estado de coisas em que a hipótese pessimista se confirmou, e por isso o pessimismo já não é um espectro mas uma condição. E isso liberta a cabeça para pensar noutros assuntos.
Escandalizado, eu?
Não conheço o sistema de justiça americano. Não sou advogado, nem constitucionalista, nem juiz, nem especialista em direito penal. Apenas me considero um observador atento e um cidadão com opiniões. Como toda a gente, também me choca a brutalidade e a aplicação da justiça com base na força coerciva.
Mas não vivo na América, e nunca me vou confrontar com nenhum Timothy McVeigh, ou com um serial killer que se escondia com o sobrinho na mala de um Chevrolet e disparava com um riffle de longo alcance, munido de mira telescópica, contra os transeuntes inocentes.
Tiremos portanto ilações e façamos juízos valorativos com base na análise do local e do tempo.
Em Portugal, os nossos cérebros bem pensantes, os nossos jornalista e intelectuais, cheios de boas intenções e brandos costumes estão muito chocados com a circunstância de a imagem pública do sr. Dominique Strauss-kahn estar a ser violentada, e com o espectáculo tenebroso das algemas e da guarda cerrada de quatro ou cinco agentes do FBI, ou da Unidade de Policia da Cidade de Nova York, sobre DSK.
Quer isto dizer que permanece em mim uma dúvida sistemática.
Que é mais justo? Uma justiça como a americana, punitiva, sim, e com pouca preocupação com a regeneração dos detidos (também falível e injusta demasiadas vezes), mas com tribunais de júri, bem estruturada, sólida, aplicada em tempo útil a partir de outros casos já estudados, com base em regras e leis perfeitamente especificadas e previamente delineadas, que trata da mesma maneira eficaz, embora de forma ríspida, o multimilionário Madoff, ou DSK - putativo candidato à presidência da república francesa - e o habitante do guetto mais sórdido de Chicago, Atlanta ou Filadélfia; ou por outro lado, uma justiça como a que se pratica em Portugal, ao gosto das elites endinheiradas, protectora dos ricos e repleta de acórdãos, habeas corpus, adiamentos, alçapões e rotas de escape por onde os advogados, caríssimos, ao serviço dos banqueiros, políticos ( principalmente destes) e “trusts” se possam escapar, com prazos extensos, dilatadíssimos e plasmados no tempo, para que suas excelências os indiciados, possam preparar em repouso e condignamente as suas defesas?
Suponhamos que este cenário se passava em Portugal. Um alto dignatário estrangeiro, um “fat cat,” como lhes chama B.Obama, da mesma estatura internacional e tão poderoso como DSK, permanecia alguns dias num dos nossos excelentes hotéis, no Ritz ou no Sheraton, (passe a publicidade), por exemplo. Cedendo aos seus instintos predatórios, ele caía sobre a empregada da suite. O resto poderão vocês imaginar. A mulher apresentava queixa e depois? Sabendo a polícia de quem se tratava, acham que alguém iria buscar o tubarão ao aeroporto, mais precisamente dentro da super confortável cabine executiva de um Boeing Triple Seven ou do 747, quando o suspeito se preparava para sair do país, em direcção ao seu onde não existe extradição para aquele onde foi cometido o crime e o apresentava à Justiça?
Acham mesmo? Bem poderemos sonhar toda a vida…
Em Portugal, comparativamente, garanto que nenhum banqueiro ou político iria preso sem direito a fiança, ou lhe era recusado aguardar o julgamento em liberdade, como neste caso, pelo simples facto de ter tentado molestar sexualmente uma mulher negra, empregada de hotel, mãe solteira, residente num subúrbio de NYC, em Brooklin, e vivendo nos EUA há apenas sete anos. Disso tenho tanta certeza como de estar aqui sentado a escrever, neste momento.
Aqui reside o nó do problema. Em Portugal não temos na Justiça uma verdadeira cultura democrática. Vejamos por exemplo como os americanos negoceiam as penas antes de ser decretada a sentença. Tudo às claras, na maior das normalidades. Em Portugal, faz-se o mesmo, mas à boca pequena e só na intimidade dos corredores e dos claustros.
Não queiram ser mais papistas que o papa. Não queiram ter a veleidade de pretender ser mais democráticos que os EUA. Não pretendam dar lições de Democracia à América. Nem a ninguém
José Luis Ferreira
Queluz, 19 de maio de 2011
Mas não vivo na América, e nunca me vou confrontar com nenhum Timothy McVeigh, ou com um serial killer que se escondia com o sobrinho na mala de um Chevrolet e disparava com um riffle de longo alcance, munido de mira telescópica, contra os transeuntes inocentes.
Tiremos portanto ilações e façamos juízos valorativos com base na análise do local e do tempo.
Em Portugal, os nossos cérebros bem pensantes, os nossos jornalista e intelectuais, cheios de boas intenções e brandos costumes estão muito chocados com a circunstância de a imagem pública do sr. Dominique Strauss-kahn estar a ser violentada, e com o espectáculo tenebroso das algemas e da guarda cerrada de quatro ou cinco agentes do FBI, ou da Unidade de Policia da Cidade de Nova York, sobre DSK.
Quer isto dizer que permanece em mim uma dúvida sistemática.
Que é mais justo? Uma justiça como a americana, punitiva, sim, e com pouca preocupação com a regeneração dos detidos (também falível e injusta demasiadas vezes), mas com tribunais de júri, bem estruturada, sólida, aplicada em tempo útil a partir de outros casos já estudados, com base em regras e leis perfeitamente especificadas e previamente delineadas, que trata da mesma maneira eficaz, embora de forma ríspida, o multimilionário Madoff, ou DSK - putativo candidato à presidência da república francesa - e o habitante do guetto mais sórdido de Chicago, Atlanta ou Filadélfia; ou por outro lado, uma justiça como a que se pratica em Portugal, ao gosto das elites endinheiradas, protectora dos ricos e repleta de acórdãos, habeas corpus, adiamentos, alçapões e rotas de escape por onde os advogados, caríssimos, ao serviço dos banqueiros, políticos ( principalmente destes) e “trusts” se possam escapar, com prazos extensos, dilatadíssimos e plasmados no tempo, para que suas excelências os indiciados, possam preparar em repouso e condignamente as suas defesas?
Suponhamos que este cenário se passava em Portugal. Um alto dignatário estrangeiro, um “fat cat,” como lhes chama B.Obama, da mesma estatura internacional e tão poderoso como DSK, permanecia alguns dias num dos nossos excelentes hotéis, no Ritz ou no Sheraton, (passe a publicidade), por exemplo. Cedendo aos seus instintos predatórios, ele caía sobre a empregada da suite. O resto poderão vocês imaginar. A mulher apresentava queixa e depois? Sabendo a polícia de quem se tratava, acham que alguém iria buscar o tubarão ao aeroporto, mais precisamente dentro da super confortável cabine executiva de um Boeing Triple Seven ou do 747, quando o suspeito se preparava para sair do país, em direcção ao seu onde não existe extradição para aquele onde foi cometido o crime e o apresentava à Justiça?
Acham mesmo? Bem poderemos sonhar toda a vida…
Em Portugal, comparativamente, garanto que nenhum banqueiro ou político iria preso sem direito a fiança, ou lhe era recusado aguardar o julgamento em liberdade, como neste caso, pelo simples facto de ter tentado molestar sexualmente uma mulher negra, empregada de hotel, mãe solteira, residente num subúrbio de NYC, em Brooklin, e vivendo nos EUA há apenas sete anos. Disso tenho tanta certeza como de estar aqui sentado a escrever, neste momento.
Aqui reside o nó do problema. Em Portugal não temos na Justiça uma verdadeira cultura democrática. Vejamos por exemplo como os americanos negoceiam as penas antes de ser decretada a sentença. Tudo às claras, na maior das normalidades. Em Portugal, faz-se o mesmo, mas à boca pequena e só na intimidade dos corredores e dos claustros.
Não queiram ser mais papistas que o papa. Não queiram ter a veleidade de pretender ser mais democráticos que os EUA. Não pretendam dar lições de Democracia à América. Nem a ninguém
José Luis Ferreira
Queluz, 19 de maio de 2011
A Cor da Minha Cútis
Há muitos, muitos anos, tantos que já se perdem na memória dos tempos, era eu um menino em idade escolar, vigorava em Angola uma disposição legal impondo que, em quase todos os documentos pessoais, surgisse um pequeno espaço em que deveríamos inscrever a nossa raça. Era no cartão escolar, na caderneta do liceu e no Bilhete de Identidade. Tínhamos, então, a fotografia habitual, com o busto ligeiramente de perfil e nunca de frente, e depois, como se não bastasse e todos fossemos cegos, e não percebêssemos o que éramos a partir da fotografia, lá tínhamos que colocar no espacinho em branco a dita raça de cada um. Era um trabalho penoso e estranho, arrepiante para uma criança e cujo significado e alcance eu nunca consegui perceber.
Tal hábito foi-se perdendo aos poucos, tornou-se obsoleto, extinguiu-se por caducidade e hoje é raro, muito raro o documento em que seja obrigatório agregar a ascendência genética. Apenas para actos clínicos, e em casos muito específicos, tal exigência ainda é formulada, hoje, ao cidadão português, e julgo que em nenhum país do mundo se pratica este uso. Talvez nas ditaduras fascistas da Coreia do Norte ou do Irão, o Estado adopte essa regra. Mesmo assim, duvido bastante.
As redes sociais abundam com pedidos de perfis, onde normalmente há apenas espaço para o credo religioso e de modo facultativo, isto é, poderemos ou não optar pela divulgação da nossa fé.
No Facebook, na construção do nosso perfil, a cor da pele é absolutamente ignorada. E é de leitura fácil e evidente, quando alguém de motu próprio, intencionalmente, assinala e vinca essa particularidade.
Portanto, depreende-se que a raça deixou de ser factor importante na avaliação das características e personalidade de cada um. E uma vez que normalmente colocamos a mais bonita foto do nosso “portfólio”, torna-se completamente redundante, despiciendo e irrelevante, que se faça uma chamada de atenção para esse facto.
Caio de cu quando vejo alguém usar este estratagema na rede social e sem que lhe seja pedido.
Cito: “OLHOS VERDES, CUTIS BRANCA”
Caio duas vezes quando constato que o artista é brasileiro.
É caso para dizer: é do telekuteku!
A raça e a cor da nossa pele nunca podem servir de factor para nos enaltecermos, ou para tentarmos tirar dividendos e vantagens acrescidas pelo facto de nascermos mais pretos ou mais albinos, amarelos, indianos ou caucasianos. Porque é uma variável aleatória do nosso nascimento, não é nada que tenhamos conquistado com esforço próprio, não é fruto do nosso trabalho e do nosso empenho, ou ainda do nosso carácter, se quiserem. Querer valorizar essa característica epidérmica, além de um acto cobarde, demonstra o mais baixo estofo moral, é um gesto abjecto e desprezível e que coloca quem o faz ao nível das bestas nazis, ou do apartheid. Foi durante o regime nazi, na Alemanha, que mais se glorificou a superioridade racial e os médicos de Josef Mengele experimentaram clarear os olhos da raça ariana, injectando corantes nas pupilas e na íris das crianças.
O Brasil é o país do multiculturalismo e da multirracialidade. Os seus maiores poetas, como Vinícius, João Gilberto, Jorge Amado, Chico Buarque, Gilberto Gil, todos cantaram a mulata e o negro brasileiros como símbolos maiores desse país mestiço, dessa mistura entre o índio, o europeu e o preto de África. O seu maior símbolo internacional é Pelé. Lula da Silva entregou o cargo de ministro da cultura a outro preto, Gilberto Gil.
Custa-me, por isso, ver um cidadão brasileiro, neste ano de 2011, usar esta linguagem, querer voltar aos costumes anacrónicos da década de 50/60 em África, introduzidos pela nossa comum potência colonial. Quem o faz, reduz-se imediatamente para 20 centímetros de altura, torna-se de estatura anã e mais não faz do que sujar o legado de Jorge Amado e João Gilberto.
Queluz, 17 de Maio de 2011
José Luís Ferreira
Tal hábito foi-se perdendo aos poucos, tornou-se obsoleto, extinguiu-se por caducidade e hoje é raro, muito raro o documento em que seja obrigatório agregar a ascendência genética. Apenas para actos clínicos, e em casos muito específicos, tal exigência ainda é formulada, hoje, ao cidadão português, e julgo que em nenhum país do mundo se pratica este uso. Talvez nas ditaduras fascistas da Coreia do Norte ou do Irão, o Estado adopte essa regra. Mesmo assim, duvido bastante.
As redes sociais abundam com pedidos de perfis, onde normalmente há apenas espaço para o credo religioso e de modo facultativo, isto é, poderemos ou não optar pela divulgação da nossa fé.
No Facebook, na construção do nosso perfil, a cor da pele é absolutamente ignorada. E é de leitura fácil e evidente, quando alguém de motu próprio, intencionalmente, assinala e vinca essa particularidade.
Portanto, depreende-se que a raça deixou de ser factor importante na avaliação das características e personalidade de cada um. E uma vez que normalmente colocamos a mais bonita foto do nosso “portfólio”, torna-se completamente redundante, despiciendo e irrelevante, que se faça uma chamada de atenção para esse facto.
Caio de cu quando vejo alguém usar este estratagema na rede social e sem que lhe seja pedido.
Cito: “OLHOS VERDES, CUTIS BRANCA”
Caio duas vezes quando constato que o artista é brasileiro.
É caso para dizer: é do telekuteku!
A raça e a cor da nossa pele nunca podem servir de factor para nos enaltecermos, ou para tentarmos tirar dividendos e vantagens acrescidas pelo facto de nascermos mais pretos ou mais albinos, amarelos, indianos ou caucasianos. Porque é uma variável aleatória do nosso nascimento, não é nada que tenhamos conquistado com esforço próprio, não é fruto do nosso trabalho e do nosso empenho, ou ainda do nosso carácter, se quiserem. Querer valorizar essa característica epidérmica, além de um acto cobarde, demonstra o mais baixo estofo moral, é um gesto abjecto e desprezível e que coloca quem o faz ao nível das bestas nazis, ou do apartheid. Foi durante o regime nazi, na Alemanha, que mais se glorificou a superioridade racial e os médicos de Josef Mengele experimentaram clarear os olhos da raça ariana, injectando corantes nas pupilas e na íris das crianças.
O Brasil é o país do multiculturalismo e da multirracialidade. Os seus maiores poetas, como Vinícius, João Gilberto, Jorge Amado, Chico Buarque, Gilberto Gil, todos cantaram a mulata e o negro brasileiros como símbolos maiores desse país mestiço, dessa mistura entre o índio, o europeu e o preto de África. O seu maior símbolo internacional é Pelé. Lula da Silva entregou o cargo de ministro da cultura a outro preto, Gilberto Gil.
Custa-me, por isso, ver um cidadão brasileiro, neste ano de 2011, usar esta linguagem, querer voltar aos costumes anacrónicos da década de 50/60 em África, introduzidos pela nossa comum potência colonial. Quem o faz, reduz-se imediatamente para 20 centímetros de altura, torna-se de estatura anã e mais não faz do que sujar o legado de Jorge Amado e João Gilberto.
Queluz, 17 de Maio de 2011
José Luís Ferreira
Um homem de sorte
Afinal sou um homem de sorte. Ainda há coisas na vida que me fazem voltar a acreditar no ser humano, e a D. Maria, o Sr. Alberto e a sua pequena mercearia são uma delas. Eles constituem o pilar fundamental, a grande reserva de valores da minha rua e que me guiaram ao longo destes quase sessenta anos.
Dentro do seu pequeno espaço comercial sou outra vez menino e sinto-me como Oliver Twist num conto de Natal de Dickens.
Já por várias vezes os atraiçoei, escapando-me para as “grandes superfícies”, pensando que daí retiraria vantagens acrescidas, mas rapidamente regresso ao aconchego e à intimidade daquele núcleo familiar.
Detesto as “grandes superfícies,”ou hipermercados, como lhe quiserem chamar. Dentro deles sinto-me fora do meu habitat natural. Espirro mais que o normal, os meus olhos lacrimejam, sou atacado por crises de tosse e ansiedade, o meu coração dispara numa batucada tremenda, numa arritmia descontrolada, e os meus índices de stress atingem o limite suportável. Nunca vejo a hora de me escapar dali para fora. A pior e mais violenta, (mas também a única), atitude que tive para com a minha filha, (quando ela tinha dois anos), aconteceu num hipermercado, quando eu, cansado e stressado pela birra, lhe desferi uma sonora bofetada na sua face de bebe. Penitenciar-me-ei para o resto da vida. (Coisa que ela se deve lembrar, mas que nunca me apontou à cara essa falha).
Os gerentes e a maior parte dos operadores são antipáticos, petulantes, boçais, irritantes, cultivam a ignorância e julgam-se no tecto do mundo por operarem a grua elevatória. À sua frente, já sei, tenho que manter uma atitude defensiva, atacando, pois sei que só reconhecem a linguagem do dinheiro e do poder, do fato e gravata, para mais facilmente exercitarem os seus instintos rastejantes e de invertebrados. Treinei uma voz e uma postura a que eu chamei de “emergência,” para situações de alta pressão. Sebosos e gordurentos, de gravatas estupidamente berrantes, adoptam linguagem estereotipada, repetitiva, julgando impressionar. Com muito gel e pouca cultura, trafegam no mundo pindérico e gentio dos “pimbas” e naquilo que no Brasil chamam de “brega.” Falsamente actualizados, mas de nível, abaixo do subterrâneo mais sujo de NYC, não conhecem mais que o estreito canteiro e o galinheiro lá do quintal, da casinha na aldeia, ou na cidadezinha do interior sertanejo. Em Portugal ouvem megatoneladas de Toni Carreira, no Brasil adoram o seu homólogo Chitãozinho e Choróró , ou o Marcelo Rossi, ostentando ares de D. Juan dos urinóis.
Há uma altura da vida em que temos que fazer escolhas e eu já fiz as minhas. Já pouco preciso para viver e não vivo nem um bocadinho para o consumismo. Nem tão pouco admiro a fancaria e o pechisbeque. Nem a publicidade de mau gosto. Seja da Caipirinha, do Guaraná, da Samsung, da Grundig, da Budweiser, ou dos hipermercados Wall-Mart.
Cada vez dou mais vezes, comigo próprio, sentado a escrever, que é onde liberto a minha imaginação e onde me sinto realmente confortável. Fora as horas em que tenho de trabalhar para viver, é aqui, a escrever, perto dos meus livros, onde gosto de estar.
Mas a mercearia da D. Maria leva-me a ser novamente um menino de calções, perante uma montra de brinquedos. À entrada sou recebido pelo busto do Zé Povinho, que me faz um manguito e me lança à cara: “Queres fiado? Toma”. Agradeço-lhe o gesto, mas acontece que quero mesmo. E mais uma vez o Sr. Alberto faz-me o favor de apontar a despesa a lápis, num caderno à parte. À minha direita, discretamente guardado, está o pequeno banquinho de madeira de sabugueiro, para a D. Maria repousar as suas pernas cansadas, ligeiramente inchadas e envoltas numas grossas meias de descanso. A sua velha bata de trabalho é a mesma, humilde, de há dez anos, mas ela guarda-a com orgulho santificado. E a pequenina estatueta de Nº Sra. de Fátima guardada numa prateleira do canto, faz-me lembrar a minha mãe, também devota da mesma santa.
E não é a primeira vez que, depois de pagar a conta, vamos dividir o pequeno lucro do sr. Alberto para a tasca da esquina, beber um “penalty” e falar do Benfica. Afinal, temos os dois, já, muitos e muitos cabelos brancos e juramos envelhecer com a máxima dignidade.
O cheiro intenso a bacalhau seco, em salmoura ou demolhado, a chouriço preto, a fumeiro e a vinho, a azeitona e azeite dos lagares alentejanos, à mistura com tremoço e couve galega, ainda com o cheiro forte da humidade da terra, do odor do trabalho e do suor, transmitem-me ao cérebro ondas poderosas de bem estar e conforto, e aqui sei que habito o paraíso. Aqui eu me prendo, e sabe-me bem a sua preocupação, quando a D. Maria me pergunta se já casei, ou se já organizei as minhas finanças.
Este é o meu mundo, e nunca a "grande superfície", ou lá o raio que os parta.
Queluz, 9 de Maio de 2011
José Luis Ferreira
Dentro do seu pequeno espaço comercial sou outra vez menino e sinto-me como Oliver Twist num conto de Natal de Dickens.
Já por várias vezes os atraiçoei, escapando-me para as “grandes superfícies”, pensando que daí retiraria vantagens acrescidas, mas rapidamente regresso ao aconchego e à intimidade daquele núcleo familiar.
Detesto as “grandes superfícies,”ou hipermercados, como lhe quiserem chamar. Dentro deles sinto-me fora do meu habitat natural. Espirro mais que o normal, os meus olhos lacrimejam, sou atacado por crises de tosse e ansiedade, o meu coração dispara numa batucada tremenda, numa arritmia descontrolada, e os meus índices de stress atingem o limite suportável. Nunca vejo a hora de me escapar dali para fora. A pior e mais violenta, (mas também a única), atitude que tive para com a minha filha, (quando ela tinha dois anos), aconteceu num hipermercado, quando eu, cansado e stressado pela birra, lhe desferi uma sonora bofetada na sua face de bebe. Penitenciar-me-ei para o resto da vida. (Coisa que ela se deve lembrar, mas que nunca me apontou à cara essa falha).
Os gerentes e a maior parte dos operadores são antipáticos, petulantes, boçais, irritantes, cultivam a ignorância e julgam-se no tecto do mundo por operarem a grua elevatória. À sua frente, já sei, tenho que manter uma atitude defensiva, atacando, pois sei que só reconhecem a linguagem do dinheiro e do poder, do fato e gravata, para mais facilmente exercitarem os seus instintos rastejantes e de invertebrados. Treinei uma voz e uma postura a que eu chamei de “emergência,” para situações de alta pressão. Sebosos e gordurentos, de gravatas estupidamente berrantes, adoptam linguagem estereotipada, repetitiva, julgando impressionar. Com muito gel e pouca cultura, trafegam no mundo pindérico e gentio dos “pimbas” e naquilo que no Brasil chamam de “brega.” Falsamente actualizados, mas de nível, abaixo do subterrâneo mais sujo de NYC, não conhecem mais que o estreito canteiro e o galinheiro lá do quintal, da casinha na aldeia, ou na cidadezinha do interior sertanejo. Em Portugal ouvem megatoneladas de Toni Carreira, no Brasil adoram o seu homólogo Chitãozinho e Choróró , ou o Marcelo Rossi, ostentando ares de D. Juan dos urinóis.
Há uma altura da vida em que temos que fazer escolhas e eu já fiz as minhas. Já pouco preciso para viver e não vivo nem um bocadinho para o consumismo. Nem tão pouco admiro a fancaria e o pechisbeque. Nem a publicidade de mau gosto. Seja da Caipirinha, do Guaraná, da Samsung, da Grundig, da Budweiser, ou dos hipermercados Wall-Mart.
Cada vez dou mais vezes, comigo próprio, sentado a escrever, que é onde liberto a minha imaginação e onde me sinto realmente confortável. Fora as horas em que tenho de trabalhar para viver, é aqui, a escrever, perto dos meus livros, onde gosto de estar.
Mas a mercearia da D. Maria leva-me a ser novamente um menino de calções, perante uma montra de brinquedos. À entrada sou recebido pelo busto do Zé Povinho, que me faz um manguito e me lança à cara: “Queres fiado? Toma”. Agradeço-lhe o gesto, mas acontece que quero mesmo. E mais uma vez o Sr. Alberto faz-me o favor de apontar a despesa a lápis, num caderno à parte. À minha direita, discretamente guardado, está o pequeno banquinho de madeira de sabugueiro, para a D. Maria repousar as suas pernas cansadas, ligeiramente inchadas e envoltas numas grossas meias de descanso. A sua velha bata de trabalho é a mesma, humilde, de há dez anos, mas ela guarda-a com orgulho santificado. E a pequenina estatueta de Nº Sra. de Fátima guardada numa prateleira do canto, faz-me lembrar a minha mãe, também devota da mesma santa.
E não é a primeira vez que, depois de pagar a conta, vamos dividir o pequeno lucro do sr. Alberto para a tasca da esquina, beber um “penalty” e falar do Benfica. Afinal, temos os dois, já, muitos e muitos cabelos brancos e juramos envelhecer com a máxima dignidade.
O cheiro intenso a bacalhau seco, em salmoura ou demolhado, a chouriço preto, a fumeiro e a vinho, a azeitona e azeite dos lagares alentejanos, à mistura com tremoço e couve galega, ainda com o cheiro forte da humidade da terra, do odor do trabalho e do suor, transmitem-me ao cérebro ondas poderosas de bem estar e conforto, e aqui sei que habito o paraíso. Aqui eu me prendo, e sabe-me bem a sua preocupação, quando a D. Maria me pergunta se já casei, ou se já organizei as minhas finanças.
Este é o meu mundo, e nunca a "grande superfície", ou lá o raio que os parta.
Queluz, 9 de Maio de 2011
José Luis Ferreira
Deixa andar, que isso passa
Raras são as vezes em que nos é oferecido um espectáculo tão grandioso, de uma forma tão serena e desinteressada. O sol, no ocaso, era um olho gigante, como o de um ciclope, translúcido, de um cristalino prateado, meio coberto por pesadas pálpebras de nuvens cinzentas, raiadas de veios de ouro, que se arrastavam lentamente, sonolentas, para o horizonte distante, para sul, como cavaleiros montados em preguiçosos camelos de caravanas berberes, nas velhas rotas do tráfico de escravos.
Para Norte, a Cordilheira Ibérica, e os seculares reinos de Aragão e Castela, incrustavam-se nas caprichosas formações de nuvens e cumulus nimbus, onde poderíamos espreitar por vezes seculares castelos e palácios das cortes de Leão e Navarra.
Pequenos e abafados trovões, rasgavam os céus com gargalhadas e conversas banais. A cidade de Lisboa calma e indiferente, expectante, guiava os seus habitantes, e todos juntos seguiam o seu caminho, num saber de experiência feito no caldeamento da História.
O proletariado português apinhava-se nos transportes públicos, desesperava com as greves, abria a boca de espanto com as medidas cada vez mais gravosas, com a desfaçatez e a falta de vergonha dos políticos. O PM em gestão, sorria cada vez mais e ostentava um ar desafiante de D. Juan da Madragoa. Arrastara o país para uma situação surreal, de pobreza e endividamento extremo e queria agora, voltar a ser eleito nas próximas eleições.
Mas havia um enigma que todos calavam embora quisessem saber:
Como era possível que o ex Governador do Banco de Portugal, que veio acompanhando todo o processo de descalabro das Finanças Publicas, com informação privilegiada, com previsões mensais de algum crescimento, ou por vezes nenhum, ao longo de vários anos, entidade independente, autónoma e perpétua, não tivesse tido a coragem, em vez nenhuma, de avisar do caminho que levávamos, para as águas turvas em que hoje nadamos?
Tal figura, pacífica até não mais, suave, de uma discrição notável, cuidadoso e parcimonioso no falar, de óculos grossos e enterrados até às orelhas, sempre carregado de documentos, e que ignorou todos os avisos, sintomas e sinais sobre o BPN e o BPP, hoje é a segunda figura no Banco Central Europeu, ao lado de J. C. Trichet.
Mas a vida seguia o seu curso e enquanto houvesse telenovelas brasileiras ou portuguesas, estava tudo bem, para que havíamos de nos incomodar? Deixa andar!
Diziam os portugueses de si para si:
- Sacudimos o jugo espanhol em 1640, sofremos um terramoto em 1755, suportamos uma bancarrota no princípio do século, passamos por duas intervenções do FMI nos últimos trinta anos e estes também hão-de passar. Quando eles se forem embora nós ainda cá estaremos!
Deixa andar, pode ser que não seja nada!
Queluz, 8 de Maio de 2011
José Luis Ferreira
Casamento Real
Sinceramente, não estou nada interessado no casamento de Kate Middleton e o príncipe William of Wales, o segundo na linha da sucessão ao trono do Reino Unido da Grã Bretanha e da Commonwealth.
Não me interessa minimamente qual o estilista que irá orgulhosamente ostentar o seu nome e do seu atelier no vestido de miss Kate. Nem tão pouco estou particularmente curioso acerca dos diamantes do anel de noivado que o Principe de Gales ofereceu à sua futura consorte. E muito menos estou preocupado em saber qual o designer a quem William encomendou o fato de cerimónia ou se levará vestido o seu esplendoroso uniforme da Real Força Aérea Britânica (RAF).
Apenas lhes desejo uma vida digna dos seus súbditos e que a partir do momento em que saiam da Abadia de Westminster saiba ele, o Príncipe de Gales, tal como sua bisavó fez durante a Guerra, na altura dos ferozes bombardeamentos alemães, o blitz nazi, resistir e permanecer junto ao seu nobre povo.
A monarquia britânica e a imprensa inglesa conduzem um jogo tradicional em que ambas se alimentam mutuamente, fornecendo a coroa os motivos para as parangonas dos tablóides e estes por sua vez retribuem-lhes transformando-os aos olhos do mundo nos maiores fenómenos mediáticos à escala global, planetária.
Estou preocupado, isto sim, como cidadão português, com o elevado número de desempregados que há neste momento no país. Estou também preocupado com as inúmeras empresas que todos os dias fecham as portas. Preocupa-me quais as medidas que o FMI vai impor a Portugal. Preocupa-me quais os cortes salariais a que vamos estar submetidos, e também estou interessado em saber como o governo português vai pagar a brutal divida que vai contrair com o FMI. Estou sobremaneira preocupado com o rumo que o pais vai tomar e quais as perspectivas de futuro para os meus concidadãos.
Como cidadão angolano preocupo-me se o governo de José Eduardo dos Santos já iniciou a construção do prometido milhão de casas para as populações carenciadas. Também estou interessado em saber se está em execução a lei que atribui rendimento mínimo garantido aos milhões de desempregados que existem por essa Angola fora. Também gostava de saber como vai a luta contra o analfabetismo em Angola. E por fim também me preocupa como o governo angolano vai resolver o problema gigantesco dos milhares de crianças que vagueiam pelas cidades de Angola, órfãos da guerra, sem família e sem protecção do Estado.
Estas são realmente as minhas preocupações.
Para o Príncipe Wililiam veremos se realmente estará á altura das responsabilidades, se um dia suceder a sua avó, Sua Majestade a Rainha Isabel II de Inglaterra.
José Luis Ferreira
Queluz, 25 de Abril de 2011.
Não me interessa minimamente qual o estilista que irá orgulhosamente ostentar o seu nome e do seu atelier no vestido de miss Kate. Nem tão pouco estou particularmente curioso acerca dos diamantes do anel de noivado que o Principe de Gales ofereceu à sua futura consorte. E muito menos estou preocupado em saber qual o designer a quem William encomendou o fato de cerimónia ou se levará vestido o seu esplendoroso uniforme da Real Força Aérea Britânica (RAF).
Apenas lhes desejo uma vida digna dos seus súbditos e que a partir do momento em que saiam da Abadia de Westminster saiba ele, o Príncipe de Gales, tal como sua bisavó fez durante a Guerra, na altura dos ferozes bombardeamentos alemães, o blitz nazi, resistir e permanecer junto ao seu nobre povo.
A monarquia britânica e a imprensa inglesa conduzem um jogo tradicional em que ambas se alimentam mutuamente, fornecendo a coroa os motivos para as parangonas dos tablóides e estes por sua vez retribuem-lhes transformando-os aos olhos do mundo nos maiores fenómenos mediáticos à escala global, planetária.
Estou preocupado, isto sim, como cidadão português, com o elevado número de desempregados que há neste momento no país. Estou também preocupado com as inúmeras empresas que todos os dias fecham as portas. Preocupa-me quais as medidas que o FMI vai impor a Portugal. Preocupa-me quais os cortes salariais a que vamos estar submetidos, e também estou interessado em saber como o governo português vai pagar a brutal divida que vai contrair com o FMI. Estou sobremaneira preocupado com o rumo que o pais vai tomar e quais as perspectivas de futuro para os meus concidadãos.
Como cidadão angolano preocupo-me se o governo de José Eduardo dos Santos já iniciou a construção do prometido milhão de casas para as populações carenciadas. Também estou interessado em saber se está em execução a lei que atribui rendimento mínimo garantido aos milhões de desempregados que existem por essa Angola fora. Também gostava de saber como vai a luta contra o analfabetismo em Angola. E por fim também me preocupa como o governo angolano vai resolver o problema gigantesco dos milhares de crianças que vagueiam pelas cidades de Angola, órfãos da guerra, sem família e sem protecção do Estado.
Estas são realmente as minhas preocupações.
Para o Príncipe Wililiam veremos se realmente estará á altura das responsabilidades, se um dia suceder a sua avó, Sua Majestade a Rainha Isabel II de Inglaterra.
José Luis Ferreira
Queluz, 25 de Abril de 2011.
Lisboa, ano 2015
Há duas semanas que um calor abrasador caíra sobre a cidade de Lisboa e uma atmosfera pesada pendia sobre os seus habitantes obrigando-os a um esforço redobrado. O vento quente vindo do deserto africano empurrava em remoinho grossos novelos de pequenos ramos, troncos e ervas daninhas que cresciam junto dos passeios e ao longo das ruas e avenidas. Grandes quantidades de sacos, restos de comida, jornais e papéis velhos, jaziam junto à porta dos restaurantes e cafés, que na sua maioria estavam fechados devido à escassa clientela. Os trabalhadores da recolha do lixo haviam abandonado os seus empregos por causa da falta de pagamento por parte da Câmara de Lisboa.
Automóveis cobertos por uma espessa camada de pó, serviam agora de abrigo aos grupos de homens e mulheres, que, espoliados das suas casas pelos bancos procuravam tecto seguro onde pernoitar.
Os serviços públicos estavam falidos e o Estado português decretara a bancarrota das Finanças nacionais. O FMI impunha a sua lei, cortava despesas e vendia em hasta pública tudo quanto podia ser alienado pelo governo central. Portugal atravessava a pior crise, desde a bancarrota de 1891. Uma recessão económica agravada por uma depressão histórica estagnava o país remetendo-o para níveis de afundamento preocupantes.
O Parlamento Europeu adoptara novas regras para o financiamento aos países em dificuldade. Subdividia-se agora em duas assembleias, sendo a mais pequena apenas para gerir os fundos de ajuda a esses países não cumpridores. Formara-se assim um novo directório que actuava como entidade fiscalizadora e aconselhadora. Desta forma os grandes como a Alemanha, a França, a Suécia, a Inglaterra, e a Finlãndia constituíam agora o grupo dos poderosos, livres para gerir entre si os grandes negócios e emprestar dinheiro aos mais pequenos conforme as condições que eles ditassem.
O partido SPD (a coligação chefiada pela sra A. Merkl), perdera as eleições e no seu lugar era Herr Hans Dietrich-Vogel o novo chanceller que governava a Alemanha. Vogel pertencia à ala direita do Partido Conservador Alemão e aliara-se ao Partido Radical de extrema direita da Finlãndia, com 20% dos votos no parlamento finlandês. Herr Vogel ganhara as eleições com maioria absoluta e governava no Bundestag a seu belprazer. Uma das primeiras medidas que adoptou quando chegou ao poder foi exigir ao FMI que obrigasse os países devedores a pagar no mais curto espaço de tempo, e até ao último cêntimo todos os juros da dívida do empréstimo aos bancos alemães, o que secava e exauria os países pequenos como Portugal.
A Televisão pública sofria os cortes mais violentes de que havia memória, no seu orçamento, e a política de financiamento à Cultura, aos artistas e agentes culturais estava reduzida ao mínimo.
-Paulo de Carvalho estava agora reformado, consciente da sua letargia, esgotada que estava há muito a sua criatividade musical. Deixara de aparecer em público, pois fora proibido pelo FMI de usar aquele visual colorido e ridículo. Abandonara também os ares de grande músico blasé e convencido, já não falava dos “Sheiks,”e deixara de cantar “Os meninos a volta da fogueira.”
-Simone de Oliveira deixara também de cobrar cachés à TV para cantar “A Desfolhada.” As estações de rádio compreendendo que os tempos eram outros também já não passavam “memórias da outra senhora.”
-Pedro Abrunhosa já não cantava, nem na sua terra natal, o Porto, e também fora proibido pelo FMI de usar os grotescos óculos escuros habituais. Fazia agora apresentação de pratos típicos, ao ar livre, ensinando a cozinhar sarrabulho, cabidela e francesinhas.
-Júlio Isidro reformara-se da RTP, finalmente, e juntara-se com o professor Carvalho da Silva, o pai do satélite português. Juntos exploravam um negócio de venda aviões de aeromodelismo. O FMI obrigava agora a procurar financiamento no sector particular, junto a entidades interessadas, caso o professor Carvalho da Silva ainda sonhasse com satélites.
Estamos agora mais descansados.
-O comendador Joe Berardo terminara a sua mostra de arte no Centro Cultural de Belém e levara a sua exposição e a valiosa colecção para Angola. Isabel dos Santos e a Sonangol patrocinavam uma exposição permanente com o nome de “The J. Berardo Art Exibition”, no mercado do Roque Santeiro em Luanda. As peixeiras e os candongueiros de Luanda recebiam assim um banho de cultura. O FMI chegara à conclusão que não era rentável manter, pagando e sem retorno, tão excelente acervo de obras de arte.
-O Rock in Rio há já três anos que desaparecera de Lisboa por falta de pagamento aos artistas e músicos convidados.
-Carlos do Carmo fora também proibido pelo FMI de imitar Frank Sinatra e também lhe fora exigido, caso pretendesse continuar a cantar o fado, que parasse de adulterá-lo e mexesse na musica nacional o menos possível, deixando de cantar nas formações com piano, contrabaixo ou mesmo bateria.
-Manuela Moura Guedes fora irradiada de vez de todas as televisões no espaço nacional e fazia agora de pivô na nova Tv de Cabo Verde. Julia Pinheiro passara a ser apenas dona de casa.
-Manuel Luis Goucha entrevistava actores gay porno e abrira um restaurante no parque Eduardo VII, de sociedade com o Carlos Malato onde os homens dançavam todos entre eles e de tronco nu.
-O FMI convidara um júri composto por Jay Leno e Woody Allen para virem a Portugal verificar in loco o estado da comédia nacional e avaliar os actores de “stand up comedy,” para saber se realmente se devia continuar a apostar neles. Foram todos chumbados à excepção de Ricardo A. Pereira, a quem foi dada uma oportunidade, mas teria que se desligar dos “Gatos Fedorentos”, iniciar uma carreira a solo e arranjar um bom argumentista.
-Nuno Markl fora convidado a parar de gastar tempo de antena na televisão, deixar de fazer sketches ridículos e deixar também de se imaginar comediante. Jay Leno não viu nele veia artística e aconselhara-o a procurar outra actividade, em que não tivesse que fazer piadas. Woody Allen ouviu durante dez minutos um dos seus programas de rádio e deu nota negativa. Nuno Markl escrevia agora pequenas brochuras para agrafar aos preços dos supermercados Continente e Pingo Doce.
Estamos agora mais descansados.
-O cozinheiro da selecção nacional de futebol deixara de apresentar programas culturais onde falava às vezes de cozinha. Fora proibido pelo FMI de o fazer. Se quisesse agora ainda aparecer na TV teria que se cingir à cozinha e passar a explicar às pessoas como fazer certos pratos da cozinha portuguesa, que é o que ele sabe melhor, que é cozinhar e não entrevistar.
-O chef Henrique Sá Pessoa também fora proibido de fazer programas de cozinha, na TV, tão entediantes. Tinha que arranjar maneira de fazer como os programas do Grande Jamie Oliver, o chef inglês.
-Os "Homens da Luta" continuavam a ganhar os Festivais RTP da Canção. Isto era o resultado lógico da fraca criatividade artística que grassava pelo país. Cantavam agora musica panfletária, onde gabavam e elogiavam o FMI do género: "Tu és o Salvador"," meu Senhor", etc. Faziam parelha com o padre José Luis Borga e o rapaz apresentador de "Portugal no Coração" e mais a Sónia Araújo."
Eu sofrera cortes substanciais no meu salário e já há alguns meses que vinha vendendo algum mobiliário, alguns aparelhos e electrodomésticos. Começara por vender o plasma que me rendeu algum dinheiro. Depois vendi a minha câmara de filmar em vídeo, mas mantive a máquina fotográfica. Depois vendi a aparelhagem de som Technics, mas guardei uma pequena TV, um Video VHS e um pequeno DVD portátil a tiracolo. Podia ligá-los todos, entre si e obter uma imagem e um som razoável. Desliguei todas as lâmpadas do meu pequeno apartamento e apenas tenho uma no quarto sobre a secretária onde escrevo, e um pequeno projector para ler deitado. Despachei um computador/plataforma multimédia, mas tenho comigo um pequeno computador com um processador de texto Word, em que escrevo os meus artigos, sem internet, que também desliguei para poupar.
Guardo alguns livros, alguma música e dois ou três filmes que tenho como meu maior tesouro. Tenho a partitura completa de “West Side Story” dirigida pelo maestro Leonard Bernstein, e a ópera de jazz “Porgy and Bess” de George Gershwin, também dirigida por Leonard Bernstein. Tenho toda a Sinfonia do Novo Mundo dirigida pelo maestro Gustave Dudamel, que me recorda alguém que deixei do outro lado do Atlãntico, a 5ª e a 9ª de Beethoven e a ópera “Tanhauser” de Wagner e acho que estou preparado para a viagem interior. De livros guardo “A Condição Humana” de A. Malraux, e alguns outros menos importantes. De filmes tenho comigo “Il Gattopardo” de L. Visconti, e “F. of Fake”, de Orson Wells e mais dois filmes antigos com a grande Catherinne Hepburn. Também guardo comigo dois clássicos do western de John Ford. Assim sinto-me confortável e protegido.
Ah, guardo também uma pequena Beretta italiana. 6,5mm, envolta num lenço, com uma bala metida no tambor, à espera que a angústia se torne insopurtável.
José Luis Ferreira
Queluz, 20 de Abril de 2011
Automóveis cobertos por uma espessa camada de pó, serviam agora de abrigo aos grupos de homens e mulheres, que, espoliados das suas casas pelos bancos procuravam tecto seguro onde pernoitar.
Os serviços públicos estavam falidos e o Estado português decretara a bancarrota das Finanças nacionais. O FMI impunha a sua lei, cortava despesas e vendia em hasta pública tudo quanto podia ser alienado pelo governo central. Portugal atravessava a pior crise, desde a bancarrota de 1891. Uma recessão económica agravada por uma depressão histórica estagnava o país remetendo-o para níveis de afundamento preocupantes.
O Parlamento Europeu adoptara novas regras para o financiamento aos países em dificuldade. Subdividia-se agora em duas assembleias, sendo a mais pequena apenas para gerir os fundos de ajuda a esses países não cumpridores. Formara-se assim um novo directório que actuava como entidade fiscalizadora e aconselhadora. Desta forma os grandes como a Alemanha, a França, a Suécia, a Inglaterra, e a Finlãndia constituíam agora o grupo dos poderosos, livres para gerir entre si os grandes negócios e emprestar dinheiro aos mais pequenos conforme as condições que eles ditassem.
O partido SPD (a coligação chefiada pela sra A. Merkl), perdera as eleições e no seu lugar era Herr Hans Dietrich-Vogel o novo chanceller que governava a Alemanha. Vogel pertencia à ala direita do Partido Conservador Alemão e aliara-se ao Partido Radical de extrema direita da Finlãndia, com 20% dos votos no parlamento finlandês. Herr Vogel ganhara as eleições com maioria absoluta e governava no Bundestag a seu belprazer. Uma das primeiras medidas que adoptou quando chegou ao poder foi exigir ao FMI que obrigasse os países devedores a pagar no mais curto espaço de tempo, e até ao último cêntimo todos os juros da dívida do empréstimo aos bancos alemães, o que secava e exauria os países pequenos como Portugal.
A Televisão pública sofria os cortes mais violentes de que havia memória, no seu orçamento, e a política de financiamento à Cultura, aos artistas e agentes culturais estava reduzida ao mínimo.
-Paulo de Carvalho estava agora reformado, consciente da sua letargia, esgotada que estava há muito a sua criatividade musical. Deixara de aparecer em público, pois fora proibido pelo FMI de usar aquele visual colorido e ridículo. Abandonara também os ares de grande músico blasé e convencido, já não falava dos “Sheiks,”e deixara de cantar “Os meninos a volta da fogueira.”
-Simone de Oliveira deixara também de cobrar cachés à TV para cantar “A Desfolhada.” As estações de rádio compreendendo que os tempos eram outros também já não passavam “memórias da outra senhora.”
-Pedro Abrunhosa já não cantava, nem na sua terra natal, o Porto, e também fora proibido pelo FMI de usar os grotescos óculos escuros habituais. Fazia agora apresentação de pratos típicos, ao ar livre, ensinando a cozinhar sarrabulho, cabidela e francesinhas.
-Júlio Isidro reformara-se da RTP, finalmente, e juntara-se com o professor Carvalho da Silva, o pai do satélite português. Juntos exploravam um negócio de venda aviões de aeromodelismo. O FMI obrigava agora a procurar financiamento no sector particular, junto a entidades interessadas, caso o professor Carvalho da Silva ainda sonhasse com satélites.
Estamos agora mais descansados.
-O comendador Joe Berardo terminara a sua mostra de arte no Centro Cultural de Belém e levara a sua exposição e a valiosa colecção para Angola. Isabel dos Santos e a Sonangol patrocinavam uma exposição permanente com o nome de “The J. Berardo Art Exibition”, no mercado do Roque Santeiro em Luanda. As peixeiras e os candongueiros de Luanda recebiam assim um banho de cultura. O FMI chegara à conclusão que não era rentável manter, pagando e sem retorno, tão excelente acervo de obras de arte.
-O Rock in Rio há já três anos que desaparecera de Lisboa por falta de pagamento aos artistas e músicos convidados.
-Carlos do Carmo fora também proibido pelo FMI de imitar Frank Sinatra e também lhe fora exigido, caso pretendesse continuar a cantar o fado, que parasse de adulterá-lo e mexesse na musica nacional o menos possível, deixando de cantar nas formações com piano, contrabaixo ou mesmo bateria.
-Manuela Moura Guedes fora irradiada de vez de todas as televisões no espaço nacional e fazia agora de pivô na nova Tv de Cabo Verde. Julia Pinheiro passara a ser apenas dona de casa.
-Manuel Luis Goucha entrevistava actores gay porno e abrira um restaurante no parque Eduardo VII, de sociedade com o Carlos Malato onde os homens dançavam todos entre eles e de tronco nu.
-O FMI convidara um júri composto por Jay Leno e Woody Allen para virem a Portugal verificar in loco o estado da comédia nacional e avaliar os actores de “stand up comedy,” para saber se realmente se devia continuar a apostar neles. Foram todos chumbados à excepção de Ricardo A. Pereira, a quem foi dada uma oportunidade, mas teria que se desligar dos “Gatos Fedorentos”, iniciar uma carreira a solo e arranjar um bom argumentista.
-Nuno Markl fora convidado a parar de gastar tempo de antena na televisão, deixar de fazer sketches ridículos e deixar também de se imaginar comediante. Jay Leno não viu nele veia artística e aconselhara-o a procurar outra actividade, em que não tivesse que fazer piadas. Woody Allen ouviu durante dez minutos um dos seus programas de rádio e deu nota negativa. Nuno Markl escrevia agora pequenas brochuras para agrafar aos preços dos supermercados Continente e Pingo Doce.
Estamos agora mais descansados.
-O cozinheiro da selecção nacional de futebol deixara de apresentar programas culturais onde falava às vezes de cozinha. Fora proibido pelo FMI de o fazer. Se quisesse agora ainda aparecer na TV teria que se cingir à cozinha e passar a explicar às pessoas como fazer certos pratos da cozinha portuguesa, que é o que ele sabe melhor, que é cozinhar e não entrevistar.
-O chef Henrique Sá Pessoa também fora proibido de fazer programas de cozinha, na TV, tão entediantes. Tinha que arranjar maneira de fazer como os programas do Grande Jamie Oliver, o chef inglês.
-Os "Homens da Luta" continuavam a ganhar os Festivais RTP da Canção. Isto era o resultado lógico da fraca criatividade artística que grassava pelo país. Cantavam agora musica panfletária, onde gabavam e elogiavam o FMI do género: "Tu és o Salvador"," meu Senhor", etc. Faziam parelha com o padre José Luis Borga e o rapaz apresentador de "Portugal no Coração" e mais a Sónia Araújo."
Eu sofrera cortes substanciais no meu salário e já há alguns meses que vinha vendendo algum mobiliário, alguns aparelhos e electrodomésticos. Começara por vender o plasma que me rendeu algum dinheiro. Depois vendi a minha câmara de filmar em vídeo, mas mantive a máquina fotográfica. Depois vendi a aparelhagem de som Technics, mas guardei uma pequena TV, um Video VHS e um pequeno DVD portátil a tiracolo. Podia ligá-los todos, entre si e obter uma imagem e um som razoável. Desliguei todas as lâmpadas do meu pequeno apartamento e apenas tenho uma no quarto sobre a secretária onde escrevo, e um pequeno projector para ler deitado. Despachei um computador/plataforma multimédia, mas tenho comigo um pequeno computador com um processador de texto Word, em que escrevo os meus artigos, sem internet, que também desliguei para poupar.
Guardo alguns livros, alguma música e dois ou três filmes que tenho como meu maior tesouro. Tenho a partitura completa de “West Side Story” dirigida pelo maestro Leonard Bernstein, e a ópera de jazz “Porgy and Bess” de George Gershwin, também dirigida por Leonard Bernstein. Tenho toda a Sinfonia do Novo Mundo dirigida pelo maestro Gustave Dudamel, que me recorda alguém que deixei do outro lado do Atlãntico, a 5ª e a 9ª de Beethoven e a ópera “Tanhauser” de Wagner e acho que estou preparado para a viagem interior. De livros guardo “A Condição Humana” de A. Malraux, e alguns outros menos importantes. De filmes tenho comigo “Il Gattopardo” de L. Visconti, e “F. of Fake”, de Orson Wells e mais dois filmes antigos com a grande Catherinne Hepburn. Também guardo comigo dois clássicos do western de John Ford. Assim sinto-me confortável e protegido.
Ah, guardo também uma pequena Beretta italiana. 6,5mm, envolta num lenço, com uma bala metida no tambor, à espera que a angústia se torne insopurtável.
José Luis Ferreira
Queluz, 20 de Abril de 2011
Circuncisão, sim ou não?
“A Questão Finkler” trata o tema da identidade. Um inglês de meia-idade, homem de valores morais e éticos pouco definidos e de escolhas politico religiosas muito vagas, desinteressante e desinteressado, sente-se atraído pelo judaísmo. Tem dois amigos judeus e envolve-se sexualmente com uma mulher judia, esposa de um deles. Mais tarde vive maritalmente com outra judia, que lhe abre as portas da cultura e da religião semita. Inicia o processo de reconhecimento das regras e à medida que avança na integração vai conhecendo a realidade dos judeus que vivem em Inglaterra, as suas dúvidas, os seus desdobramentos de personalidade, as suas perplexidades, as suas ambiguidades de carácter, os seus ódios mútuos e a sua vergonha da condição de judeus, pelos actos praticados por alguns grupos de israelitas na Palestina.
Um dos pontos altos do livro é quando a nossa personagem - Treslove, se confronta com a tradição semita da circuncisão (o corte do prepúcio no órgão sexual masculino).
Com os seus amigos judeus avalia o grau de prazer que uns e outros, ele na condição de ocidental incircuncisado, conseguem oferecer às mulheres. Os motivos desta tradição e os fundamentos religiosos e morais da parte dos ancestrais semitas são expostos pelo autor de forma acutilante e engraçada.
Retirei algumas curtas passagens para quem quiser ler:
-Tens a certeza que gostas de mim perplexo? – Adoro-te perplexo. – E circuncisado? – O que é que a masculinidade tem a ver com isso? No que respeita à circuncisão, escrevera Maimónides, penso que um dos seus propósitos é limitar as relações sexuais. A circuncisão contraria a luxúria em excesso, enfraquece o poder da excitação sexual e por vezes diminui o prazer natural.
Quando andava na escola Finkler gabara-se da sua circuncisão: com uma destas maravilhas aqui podes aguentar para sempre, dissera ele e Treslove contestara-o…defendendo que Finkler perdera a parte mais sensível dele mesmo. Não só F. perdera a parte mais sensível dele mesmo como esta lhe fora tirada precisamente para que não pudesse sentir aquilo que Treslove sentia.
A circuncisão serve para travar o sexo? Bem, é uma verdade que existe para nos meter medo, e fazer-nos ter medo do sexo é parte da coisa. – Sempre me disseste que os judeus encaravam o sexo com moderação. – Mas se estás a perguntar-me se a circuncisão, como meio de inibir o impulso sexual, é especificamente judia, diria que não. Antropologicamente falando, e para começar, nem sequer tem a ver com sexo, excepto pelo facto de que todas as cerimónias de iniciação estão relacionadas com o sexo. A circuncisão tem a ver com cortar os fios da dependência. E etc., etc., etc.
Bom, por hoje chega para abrir o apetite; para o livro, claro! Malandros estes judeus, heim!
José Luis
17 de Abril de 2010
Um dos pontos altos do livro é quando a nossa personagem - Treslove, se confronta com a tradição semita da circuncisão (o corte do prepúcio no órgão sexual masculino).
Com os seus amigos judeus avalia o grau de prazer que uns e outros, ele na condição de ocidental incircuncisado, conseguem oferecer às mulheres. Os motivos desta tradição e os fundamentos religiosos e morais da parte dos ancestrais semitas são expostos pelo autor de forma acutilante e engraçada.
Retirei algumas curtas passagens para quem quiser ler:
-Tens a certeza que gostas de mim perplexo? – Adoro-te perplexo. – E circuncisado? – O que é que a masculinidade tem a ver com isso? No que respeita à circuncisão, escrevera Maimónides, penso que um dos seus propósitos é limitar as relações sexuais. A circuncisão contraria a luxúria em excesso, enfraquece o poder da excitação sexual e por vezes diminui o prazer natural.
Quando andava na escola Finkler gabara-se da sua circuncisão: com uma destas maravilhas aqui podes aguentar para sempre, dissera ele e Treslove contestara-o…defendendo que Finkler perdera a parte mais sensível dele mesmo. Não só F. perdera a parte mais sensível dele mesmo como esta lhe fora tirada precisamente para que não pudesse sentir aquilo que Treslove sentia.
A circuncisão serve para travar o sexo? Bem, é uma verdade que existe para nos meter medo, e fazer-nos ter medo do sexo é parte da coisa. – Sempre me disseste que os judeus encaravam o sexo com moderação. – Mas se estás a perguntar-me se a circuncisão, como meio de inibir o impulso sexual, é especificamente judia, diria que não. Antropologicamente falando, e para começar, nem sequer tem a ver com sexo, excepto pelo facto de que todas as cerimónias de iniciação estão relacionadas com o sexo. A circuncisão tem a ver com cortar os fios da dependência. E etc., etc., etc.
Bom, por hoje chega para abrir o apetite; para o livro, claro! Malandros estes judeus, heim!
José Luis
17 de Abril de 2010
quinta-feira, 31 de março de 2011
"O Diabo Atrás da Porta" (excertos)
"O Diabo atrás da Porta" é uma experiência de novela que venho escrevendo há algum tempo. Pode ser que trazendo-a cá para fora encontre a inspiração para terminar. Entretenham-se.
Exactamente às 13.15 horas Suzete chegava ao aeroporto de Heathrow e como só levava uma mala pequena, não se dirigiu ao check-in. Pouco sabia de aeroportos e também não sabia que não podia levar líquidos para a cabina do avião. Ao chegar à zona de inspecção das máquinas de Raios X, teve que entregar a garrafa de yougourt de quase um litro e ao abrir a mala onde estava o recipiente de plástico mostrou também o envelope e a pasta com os maços de libras e euros. Ninguém lhe perguntou nada e Suzete arrumou outra vez tudo dentro de uma bolsa de pele de crocodilo e seguiu satisfeita rumo à sala de espera para o embarque.
Paul Mills era agente da Scotland Yard há quase trinta anos, pertencia à secção de imigração, conhecia todos os aeroportos de Inglaterra e estava há cinco destacado para o aeroporto de Heathrow. O seu trabalho era passear pela zona de embarque, “undercover”, para detectar suspeitos, mas normalmente mantinha-se junto às filas de gente que passavam pelas máquinas de Raios x. Estava em contacto permanente através de auricular com o agente especial Martin Thompson do MI6, que assegurava os contactos com a Interpol, nos assuntos relacionados com o crime internacional, lavagem de dinheiro e contrabando de estupefacientes.
Houve qualquer coisa nos movimentos de Suzete que fez com que o agente Paul Mills da Scotland Yard, , mandasse um sinal em código, às 13.45, para o agente especial Martin Thompson do MI6, Special Branch, fazendo referência à pequena mulher de origem africana que se dirigia para a zona de embarque do aeroporto de Heathrow em Londres. O agente Martin Thompson era um bom fotógrafo e conseguiu, mesmo com aquela fraca iluminação tirar quatro fotografias à pequena Suzete, que comprava uma revista de moda feita para a comunidade negra dos Estados Unidos. Depois foi sentar-se e apreciar um chocolate de leite, avelãs e amendoins num dos sofás confortáveis do aeroporto. Ninguém ouviu os quatro clicks da Cannon digital do agente Thompson, ou se ouviram julgaram que se tratasse de mais um turista excêntrico com a mania da fotografia.
Trajava uma velha gabardina cinzenta, por cima de um blazer de bombazina e umas calças também de bombazina. Trazia um cachecol ao pescoço que tapava uma gravata às riscas e tinha enterrado na cabeça um chapéu cinzento mole, meio de chuva meio de caçador, de aba larga, o que lhe dava um ar bastante descontraído, ridículo e informal. Calçava sapatos de camurça confortáveis e era homem a rondar os cinquenta anos de idade. Dois ou três minutos depois os ficheiros de imagem (dois close-up feitos com o zoom e dois planos normais da senhora sentada) captados pela Cannon digital do agente Martin Thompson estavam a ser enviados para a policia do aeroporto de Fiumiccino, em Roma e para a Interpol, em e-mail confidencial com o seguinte texto: “Para futura investigação, possível contrabando de capitais ou lavagem de dinheiro”. Ass. Martin Thompson,MI6, U.K.
A ordem que receberam dos oficiais da Interpol, do MI6 e da Scotland Yard foi para que não a detivessem, não havia provas de nada, o melhor seria deixarem-na seguir e tentarem penetrar na rede que porventura ela integrava e descobrir todas as ramificações se houvesse. Estava a ser-lhe dada rédea solta, poderia ser que cometesse algum erro, mas por enquanto era apenas um ponto de interrogação, uma pequenina pedra na enorme montanha de suspeitos da Interpol. No entanto começou a ser feita, dentro dos arquivos da Interpol, uma pequena ficha provisória de Susete, apenas para referência caso fosse necessário.
José Luis Ferreira
Exactamente às 13.15 horas Suzete chegava ao aeroporto de Heathrow e como só levava uma mala pequena, não se dirigiu ao check-in. Pouco sabia de aeroportos e também não sabia que não podia levar líquidos para a cabina do avião. Ao chegar à zona de inspecção das máquinas de Raios X, teve que entregar a garrafa de yougourt de quase um litro e ao abrir a mala onde estava o recipiente de plástico mostrou também o envelope e a pasta com os maços de libras e euros. Ninguém lhe perguntou nada e Suzete arrumou outra vez tudo dentro de uma bolsa de pele de crocodilo e seguiu satisfeita rumo à sala de espera para o embarque.
Paul Mills era agente da Scotland Yard há quase trinta anos, pertencia à secção de imigração, conhecia todos os aeroportos de Inglaterra e estava há cinco destacado para o aeroporto de Heathrow. O seu trabalho era passear pela zona de embarque, “undercover”, para detectar suspeitos, mas normalmente mantinha-se junto às filas de gente que passavam pelas máquinas de Raios x. Estava em contacto permanente através de auricular com o agente especial Martin Thompson do MI6, que assegurava os contactos com a Interpol, nos assuntos relacionados com o crime internacional, lavagem de dinheiro e contrabando de estupefacientes.
Houve qualquer coisa nos movimentos de Suzete que fez com que o agente Paul Mills da Scotland Yard, , mandasse um sinal em código, às 13.45, para o agente especial Martin Thompson do MI6, Special Branch, fazendo referência à pequena mulher de origem africana que se dirigia para a zona de embarque do aeroporto de Heathrow em Londres. O agente Martin Thompson era um bom fotógrafo e conseguiu, mesmo com aquela fraca iluminação tirar quatro fotografias à pequena Suzete, que comprava uma revista de moda feita para a comunidade negra dos Estados Unidos. Depois foi sentar-se e apreciar um chocolate de leite, avelãs e amendoins num dos sofás confortáveis do aeroporto. Ninguém ouviu os quatro clicks da Cannon digital do agente Thompson, ou se ouviram julgaram que se tratasse de mais um turista excêntrico com a mania da fotografia.
Trajava uma velha gabardina cinzenta, por cima de um blazer de bombazina e umas calças também de bombazina. Trazia um cachecol ao pescoço que tapava uma gravata às riscas e tinha enterrado na cabeça um chapéu cinzento mole, meio de chuva meio de caçador, de aba larga, o que lhe dava um ar bastante descontraído, ridículo e informal. Calçava sapatos de camurça confortáveis e era homem a rondar os cinquenta anos de idade. Dois ou três minutos depois os ficheiros de imagem (dois close-up feitos com o zoom e dois planos normais da senhora sentada) captados pela Cannon digital do agente Martin Thompson estavam a ser enviados para a policia do aeroporto de Fiumiccino, em Roma e para a Interpol, em e-mail confidencial com o seguinte texto: “Para futura investigação, possível contrabando de capitais ou lavagem de dinheiro”. Ass. Martin Thompson,MI6, U.K.
A ordem que receberam dos oficiais da Interpol, do MI6 e da Scotland Yard foi para que não a detivessem, não havia provas de nada, o melhor seria deixarem-na seguir e tentarem penetrar na rede que porventura ela integrava e descobrir todas as ramificações se houvesse. Estava a ser-lhe dada rédea solta, poderia ser que cometesse algum erro, mas por enquanto era apenas um ponto de interrogação, uma pequenina pedra na enorme montanha de suspeitos da Interpol. No entanto começou a ser feita, dentro dos arquivos da Interpol, uma pequena ficha provisória de Susete, apenas para referência caso fosse necessário.
José Luis Ferreira
"O Diabo Atrás da Porta" (excertos)
Londres, a cidade tentacular, abria os seus braços. O gigantesco dédalo de ruas, cruzamentos, pontes, travessas, underground, esquadras, prédios, restaurantes, pubs, comboios, autocarros, serenara, recolhera-se e repousava para no dia seguinte se oferecer novamente. Eis a cidade das mil faces, de um milhão de rostos. Cidade aberta para o mundo, receptiva. Londres era o planeta. Englobava o mundo, todas as etnias, raças, religiões. Mas nesta avançada hora era apenas a parceira dos algozes. Na penumbra dos candeeiros alguém conspirava para lançar um golpe sobre a tranquilidade da grande urbe.
Eram exactamente 3.45 h. Chegaram a um beco sujo e Mick disse a Suzete que pusesse o gorro e as luvas.
–Vens atrás de mim, o teu trabalho é só teres estes sacos abertos e estares bem atenta. Vão ser dois sacos destes grandes, não sei se vai haver mais um, depende ok? Beatiful!
Mick falava entre dentes, estava com a boca e os lábios cerrados. Edward ficava no carro com o motor ao ralenti. Estava tudo pronto para que se accionasse a mola, estava aberto o fosso que separava uma vida, esta que a Suzete vivia, de fome, alcoolismo, doença, amargura e pobreza, dessa outra de fortuna e prazer, dos passeios que ela sempre quis, das praias, da vida nesses carros e apartamentos de luxo, do outro lado do fosso. Iam saltar para o desconhecido, apostavam muito alto, tudo era um risco, Suzete ia atravessar essa linha. Arrancaram a baixa velocidade, com cautela, olhando para todos os lados, não andava ninguém na rua. Estava deserta.
José Luids Ferreira
"O Diabo Atrás da Porta" (excertos)
"O Diabo Atrás da Porta"
Usava também, quando saía à rua, uma espécie de bata, aberta à frente, até dois palmos acima dos joelhos, com botões grandes como olhos curiosos e com casas largas, onde o suão de Londres penetrava livremente, abanava as abas do vestido e passeava como em túneis abertos ao mundo; com ramagens castanhas e verdes, a imitar o tamarindo, com serpentes estampadas, de olhar simpático e olhos vorazes, com a língua espetada para quem se aproximasse demais. Esta era a bata para todo o serviço, para fora e dentro de casa, quando houvesse amigos, um poucochinho mais discreta, mas que também atraía o olhar da miudagem do bairro, numa rua marcada pela ignominia, debochada e viciosa, verdadeiro poço de pecados, de maledicência, numa cidade perdida tal qual a Gomorra da Bíblia. A sensualidade felina de Cátia, como também gostava que lhe chamassem, e a sua feminilidade eram puro deleite e tentação para os olhares concupiscentes da vizinhançamasculina.
Londres não prestava, para Cátia. Parecia uma coisa, mas era outra. O demónio era quem mandava em Londres. Do céu, parecia fantástica. A enorme extensão plana onde não se via o fim, os prédios não muito altos, parecia-lhe a princípio, que até o entardecer de Londres era mais acolhedor, cálido, de uma temperatura amena, simpática, enfim. Mas pouco tempo depois apercebera-se afinal da realidade. As ruas eram sujas, a política era suja. Tony Blair era um cabrão. A virtude e a boa educação estavam há muito ausentes de Londres. Era só má-língua, gajas a darem o corpo, em cada esquina encontravam-se pares a beijarem-se, elas andavam quase nuas, eram elas que chamavam os homens, havia muitos paneleiros, os gays estavam na moda, em cada loja que Cátia entrava só se via mau ambiente, traições, inveja, elas eram as piores, tudo transmitia sexo, cheirava a podridão, a devassidão, promiscuidade, esta cidade estava uma lástima. Qualquer dia está-se mesmo a ver que ia acontecer uma desgraça. Nova York também era assim antes do 11 de Setembro, aquilo que lá aconteceu foi um aviso de Deus pelo caminho em que as coisas levavam.
Mas Cátia mudava de opinião como o lagarto muda a cor da pele conforme a folhagem. A sua capacidade financeira do momento era a lente através da qual ela observava o mundo, o factor principal de análise instantânea e superficial, o barómetro que tudo media e auscultava a tensão e a pulsação da cidade.
Londres não prestava, para Cátia. Parecia uma coisa, mas era outra. O demónio era quem mandava em Londres. Do céu, parecia fantástica. A enorme extensão plana onde não se via o fim, os prédios não muito altos, parecia-lhe a princípio, que até o entardecer de Londres era mais acolhedor, cálido, de uma temperatura amena, simpática, enfim. Mas pouco tempo depois apercebera-se afinal da realidade. As ruas eram sujas, a política era suja. Tony Blair era um cabrão. A virtude e a boa educação estavam há muito ausentes de Londres. Era só má-língua, gajas a darem o corpo, em cada esquina encontravam-se pares a beijarem-se, elas andavam quase nuas, eram elas que chamavam os homens, havia muitos paneleiros, os gays estavam na moda, em cada loja que Cátia entrava só se via mau ambiente, traições, inveja, elas eram as piores, tudo transmitia sexo, cheirava a podridão, a devassidão, promiscuidade, esta cidade estava uma lástima. Qualquer dia está-se mesmo a ver que ia acontecer uma desgraça. Nova York também era assim antes do 11 de Setembro, aquilo que lá aconteceu foi um aviso de Deus pelo caminho em que as coisas levavam.
Mas Cátia mudava de opinião como o lagarto muda a cor da pele conforme a folhagem. A sua capacidade financeira do momento era a lente através da qual ela observava o mundo, o factor principal de análise instantânea e superficial, o barómetro que tudo media e auscultava a tensão e a pulsação da cidade.
José Luis Ferreira
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